DINHEIRO é da conta de criança?

Celulares e apps fazem filhos lidarem com dinheiro precocemente, exigindo acompanhamento familiar

Havia um tempo em que se costumava dizer que o lado bom de ser criança é que, nessa fase, não existe boleto para pagar. Mas será que isso é verdade? De fato, a obrigação de prover as necessidades dos menores cabe aos pais ou aos responsáveis. Entretanto, tratar a infância como desculpa para alienação sobre os custos de vida pode ser prejudicial para o desenvolvimento dos filhos.

Ainda que crianças e adolescentes não sejam responsáveis legais, é fundamental estimular sua inteligência financeira e fazer com que cresçam conscientes de questões como a realidade econômica e a forma como os adultos conseguem arcar com suas despesas. Essa integração é importante para semear neles o senso de responsabilidade, valor pela família, orgulho das conquistas e, sobretudo, prepará-los para construírem um futuro melhor.

O primeiro contato com o dinheiro pode ocorrer, por exemplo, por meio de brincadeiras ou conversas informais. Mas é imprescindível que todos em casa deem o exemplo, já que as crianças reproduzem com muita facilidade o que observam nos adultos. Quando os pais colocam em prática aquilo que ensinam, os filhos absorvem com mais naturalidade. Escolas também podem contribuir para esse processo, incluindo a educação financeira em sala de aula.
O motivo é simples: por mais que crianças e adolescentes sejam novos e não tenham a noção completa do dinheiro, a capacidade deles não deve ser subestimada. De acordo com um estudo realizado pela Universidade de Cambridge, os hábitos e a relação com o dinheiro se formam até os 7 anos de idade, fase ideal para transmitir noções de preço e valor real, custo, benefício e trocas. Antes, entre os 3 e os 5 anos, as crianças estão mais receptivas às ideias de escolha e condições (se levar este, não pode levar aquele), mas ainda têm limitações no entendimento monetário. Já entre os 6 e os 10 anos, é interessante esclarecer a precificação dos itens, fazer comparações e introduzir a semanada ou mesada.

A educação financeira, portanto, é essencial para a autonomia infantil. Mas ela também exige cuidado com a segurança. Além de ensinar os filhos a lidar estrategicamente com o dinheiro, os pais devem usar ferramentas de controle parental, já que a tecnologia aumenta a exposição a golpes e compras impulsivas. Autonomia financeira se constrói com liberdade, mas também com supervisão.

Como as famílias campistas encaram isso?

DINHEIRO é da conta de criança?Giulia França, filha da fisioterapeuta Flávya França, tem apenas 11 anos, mas, desde 2024, possui conta digital, utilizada principalmente para pagar lanches na escola e algumas compras online. Segundo a mãe, ela prefere o pagamento por Pix e não tem um valor fixo por mês. Flávya também observa que, apesar de ser a caçula da família, Giulia prefere poupar os recursos para atingir um determinado propósito. “Costumo supervisionar os extratos regularmente. Ela não é uma menina gastadeira. Acredito que ela seja assim porque costuma participar das conversas com meu marido sobre ajustes de orçamento”, disse Flávya.

DINHEIRO é da conta de criança?Mãe dos gêmeos Laís e Vinícius, a psicóloga Simone Lessa Chaves afirma que, desde cedo, eles foram introduzidos nos assuntos financeiros por meio de jogos, brincadeiras e cofrinhos. Hoje, os irmãos estão com dez anos de idade. “Quando tinham 8 anos, fizemos uma conta própria para crianças, vinculada à nossa, que permite realizarem débitos, Pix e até gerenciarem por aplicativo. Assim, podem ganhar autonomia e muitas conversas sobre educação financeira. Contudo, ainda não permitimos o uso do cartão para compras de jogos ou em aplicativos, nem compras pela internet. Essas compras são feitas exclusivamente pelos pais”, ponderou Simone, revelando que os irmãos costumam usar o dinheiro para lanches, passeios escolares e eventos cotidianos, sempre com supervisão e boas conversas.