Existem vivências que parecem absurdas quando contadas. Quantas vezes nos deparamos com histórias que nos fazem repensar um pouco os nossos próprios problemas, não é mesmo? Fiquei pensando nisso ao reler, mês passado, “Rabo de Foguete”, as memórias de exílio do poeta Ferreira Gullar, que ganhou nova edição recentemente. Para se ter uma ideia dos dramas ali narrados, o também poeta e crítico Ivan Junqueira certa vez disse que “Rabo de Foguete” era “uma das histórias mais cruas e desoladas que havia lido em toda a sua vida”, logo ele, que tinha uma biblioteca invejável como imortal da ABL.
Mas, apesar do tom sentencioso, Ivan não estava exagerando: ao narrar os anos de exílio na Rússia e na América Latina, Ferreira Gullar atinge um tom semelhante ao de Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere”, com a diferença de ter vivido um infortúnio talvez pior do que se estivesse encarcerado. Até mesmo pelas repercussões familiares geradas por sua longa fuga.
Tendo sido eleito de forma involuntária para os quadros intelectuais do PCB (embora se opusesse de fato ao governo), Gullar foi obrigado a cair na clandestinidade após seu nome aparecer em uma lista de procurados pela polícia. Depois de passar meses se escondendo na casa de amigos ainda no Rio de Janeiro, acabou se dirigindo para o território portenho e, dali, fugiu para Moscou, deixando para trás esposa, filhos, o trabalho na imprensa e toda sua atuação como intelectual de prestígio no país.
Ao ser acolhido pela então URSS, porém, logo percebeu o abismo entre a utopia que o atraía e a realidade que o cercava. A desolação ao pensar no próprio futuro (e no Brasil) era completa. Mas não foi apenas politicamente que seu mundo estava virando de ponta-cabeça: foi na URSS que Gullar encontrou uma das maiores paixões de sua vida, a “moça branca como a neve”, do poema “Me Leve”, cujo relato de paixão e despedida é um dos pontos altos do livro.
Tendo que partir da União Soviética, o poeta seguiu para o Chile (onde a crise e a morte de Salvador Allende acentuaram ainda mais sua desilusão política), tentou viver em Lima, no Peru, mas acabou se instalando mesmo em Buenos Aires, cidade que lhe renderia o famoso “Poema Sujo” e seria o ponto final de um périplo marcado por encontros e amarguras.
Até porque o exílio cobrara seu preço: um dos filhos do poeta, por exemplo, simplesmente fugira de casa, após diversos episódios traumáticos de esquizofrenia, tema que o acompanharia para sempre. O relato de sua vida naquele momento é comovente. Uma aula de lucidez e autocrítica. É até impressionante lembrar que os poemas de “Dentro da Noite Veloz” surgiram nesse período. Como era possível um homem suportar tantos dramas familiares e existenciais e ainda assim legar poemas tão carregados de afeto e beleza?
A volta ao Brasil, evidentemente, encerrou todo esse périplo que beira a literatura fantástica, cujo ponto final é capaz de deixar qualquer leitor em suspenso com uma lição indescritível, demonstrando que a vida, mesmo ferida, pulsa. E, enquanto pulsa, resiste.
