Gestante pode usar antidepressivo?

Dra. Gabriela Dal Molin - Gestante pode usar antidepressivo
A médica psiquiatra Dra. Gabriela Dal Molin

Dra. Gabriela Dal Molin desmistifica o uso desse medicamento na gestação

Houve um tempo em que o uso de antidepressivos era cercado de mistificações. A forma como esses medicamentos atuavam no organismo, associada à escassez de informações acessíveis ao público, trouxe diversos estigmas para a sociedade, alimentando temores em boa parte da população. Mas isso ficou para trás. O avanço da indústria farmacêutica nas últimas décadas possibilitou a chegada de fármacos mais eficazes e com menos efeitos colaterais, ajudando a desconstruir uma série de mitos, inclusive no que diz respeito às gestantes.

Isso porque, ao contrário do que se pensa, os antidepressivos podem, sim, ser utilizados na gestação, contribuindo para que diversas mulheres não precisem interromper seus respectivos tratamentos. “Existe o mito de que os antidepressivos não poderiam ser usados na gestação, mas os congressos de psiquiatria vêm esclarecendo cada vez mais o tema, a fim de desconstruir essa ideia equivocada”, afirma a médica psiquiatra Dra. Gabriela Dal Molin. “A gente sabe que os antidepressivos podem ser utilizados pelas gestantes, alguns inclusive com mais facilidade, não ficando restritos à sertralina, como até então se pensava. Além disso, outras medicações também podem ser indicadas nessa fase, não apenas os antidepressivos”, disse.

Outro dado relevante, segundo Dra. Gabriela, foi difundido recentemente, no 42º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado no Rio de Janeiro, onde diversos especialistas detalharam esse tipo de abordagem junto às gestantes. “Um ponto importante citado no último congresso é que, se a medicação for necessária durante a gestação, ela pode, em muitos casos, ser mantida na fase de amamentação, assegurando a continuidade do tratamento, o que é um dado extremamente relevante dentro da nossa prática clínica”, destacou a médica.

Ela ressalta, no entanto, que o uso desses medicamentos exige avaliação individualizada, até para evitar danos à saúde. “As consequências do uso indevido desses fármacos podem ser as mais diversas, incluindo abstinência. É fundamental realizar o acompanhamento adequado, inclusive para deixar o médico ciente do desejo de engravidar. Isso ajuda, por exemplo, a planejar a troca da medicação quando for necessário, optando por alternativas mais seguras a essa gestante”, diz Dra. Gabriela. “É importante fazer o gerenciamento do tratamento, já que alguns pacientes acabam não retornando ao consultório. Da mesma forma, é fundamental que o médico conheça o nível de teratogenicidade de cada medicação, a fim de definir quando é necessário interromper, ajustar ou substituir o tratamento daquela paciente”, acrescentou a especialista, lembrando também dos benzodiazepínicos que, em excesso, podem sedar o bebê no último trimestre, reforçando assim a necessidade de acompanhamento especializado.

Dra. Gabriela destaca, por fim, a importância dos profissionais que assistem à gestante estarem alinhados, a fim de garantir o manejo adequado do tratamento, além de permitir que a paciente se sinta mais segura e confiante durante esse processo. “Se houver necessidade de medicação, isso não deve ser um tabu, desde que haja acompanhamento adequado. A rotina e a psicoterapia também são fundamentais. Manter bons hábitos, dormir bem e praticar atividade física fazem parte do tratamento. O cuidado psiquiátrico não se resume à medicação, mas ao funcionamento geral de cada paciente, buscando aliviar o sofrimento sempre que preciso”, lembra Dra. Gabriela. “Hoje vemos muitas gestantes com transtorno de ansiedade prévio, depressão prévia ou quadros de pânico, além de pacientes bipolares em fase de manutenção. Mas a gestante e o profissional podem e devem atuar em sintonia, formando assim uma dupla capaz de garantir o sucesso do tratamento, buscando sempre o melhor resultado”.