A morte do peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, já é, por si só, uma ocorrência triste em um mundo tão carente de intelectuais desse porte. Mas ela ganha um tom ainda mais melancólico ao constatar as reações provocadas pela notícia na internet, onde um número considerável de usuários simplesmente comemorou o falecimento do autor de “Conversa no Catedral” por conta de suas opiniões políticas.
Isso já vem se tornando comum em tempos tão polarizados, é verdade, mas um sintoma ainda mais específico chamou minha atenção: a forma idílica pela qual os detratores balizavam seus argumentos, chegando a dizer que só “almas puras”, “sem preconceitos, ressentimentos e ambições”, seriam capazes de escrever boa literatura. Não foram poucos os que justificariam o inominável com esse tipo de argumento – e alguns exatamente com estas palavras. Não é incrível?
Fico imaginando, então, o que restaria de todas as bibliotecas do planeta se desaparecessem, nesse exato instante, todos os livros escritos por almas impuras, sem preconceitos, ressentimentos e ambições… O que seria da literatura russa, brasileira, inglesa, espanhola, latino-americana e todas as outras cuja pena saíra da mão de um mero homo sapiens? Dá para imaginar?
Foi irresistível, nesse ínterim, não vir à mente um dos escritores que mais destrincharam com maestria esse falso moralismo de quem parece verdadeiramente cego por ideologias: o nosso bravo Nelson Rodrigues. Houve até um episódio famoso, que talvez alguns desconheçam. Foi quando, em seus habituais telefonemas de fim de ano, Nelson ligara para Alceu Amoroso Lima, intelectual católico e crítico literário de renome no país, que sempre respondia estar orando pelo dramaturgo. Em um desses telefonemas, no entanto, bastou Nelson comentar um pouco de sua vida para Alceu responder, de forma impensada: “Ah, Nelson, você aí nessa lama!”.
O dramaturgo, claro, se ofendeu. Achou que o então amigo, na sua “imodéstia de santo”, não tinha o direito de dizer aquilo. Nelson Rodrigues até pensou em devolver a ofensa, mas preferiu ignorar o caso. Tempos depois, no entanto, lembrou a ferida em uma crônica: “Dr. Alceu dizia ‘lama’ familiarmente, como se falasse de uma tia minha, bem idosa e até estimável. Tive a ideia de responder-lhe: — ‘Minha lama vai bem. E a sua, dr. Alceu?’”, escreveu o dramaturgo. “Não lhe ocorre que o senhor também tem sua cota de lama, a sua lamazinha, o seu pântano, os seus sapos, as suas rãs, os seus marrecos, hein, dr. Alceu?’”, acrescentou Nelson. “E assim os dois, ele, um puro, eu, um obsceno, perdemos cada qual um amigo maravilhoso”.
Dali em diante, Nelson Rodrigues passou a desmistificar, para o público, como o falso moralismo pode ser tão sujo quanto qualquer alma, que também tem suas porções de lama, independente de quem seja. “A Menina Sem Estrela”, que fala um pouco sobre o episódio, é uma aula de humanidade para quem reconhece a condição ínfima do homem diante de si mesmo. O fato é que, anos depois, Nelson Rodrigues e Alceu Amoroso Lima, felizmente, se reconciliaram, esquecendo-se de vez aquele triste episódio – mas o aprendizado ficou.
Até porque, como dizia Mário de Andrade, não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição.
