(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
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Sthevo Damaceno

O poder do silêncio

Recentemente, um amigo chamou minha atenção para um dado curioso desses tempos digitais: a forma como nossa audição tem sido invadida por um número de vozes muito maior do que ocorria no passado. Se antes ouvíamos basicamente as pessoas que cruzavam nosso caminho (ou surgiam na TV), hoje poucos minutos no Instagram ou no TikTok já nos expõem a um contingente de falantes que, em outros tempos, levaríamos semanas para atingir. Curioso, não?

Talvez seja até difícil mensurar o impacto disso na saúde mental, mas fico interessado também em pensar no efeito oposto: o desaparecimento daqueles instantes de silêncio que faziam parte da rotina e foram substituídos pelo uso do celular. O fenômeno talvez explique por que tantos pais de adolescentes hoje se espantem ao ver os filhos sempre com necessidade de estímulos, a ponto de acharem insuportáveis os momentos silenciosos do dia a dia.

Não sei por quê, mas, toda vez que o assunto gira em torno do silêncio, lembro-me de um episódio intrigante, envolvendo a arquiteta e urbanista Lota Macedo Soares, idealizadora do Aterro do Flamengo (e que se eternizou no mundo literário pelo romance vivido com a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop).

Filha de José Eduardo de Macedo Soares, dono do prestigiado Diário Carioca, Lota viveu seu auge profissional em um dos momentos mais efusivos da nossa história. Mas o que ficou na minha lembrança foi um relato de sua filha, Mônica, publicado uma vez em O Globo, contando que um dos grandes prazeres da arquiteta era se dirigir para sua casa, em Petrópolis, onde logo se refugiava em um canto cheio de corujas.

“Ela falava para mim: dê muito valor ao silêncio. Observávamos os olhinhos das corujas brilhando no escuro. Hoje, eu entendo. Ela devia viver num tormento só. Aquele era o momento em que ficava em paz”, lembrou Mônica.

(Engraçado que, naquela mesma edição, se não me engano, havia outro relato igualmente simbólico. Era da artista plástica Susi Sielski, que contava uma história vivida com seu avô, Ferdinand Levi. Na Segunda Guerra Mundial, ele foi deportado de Frankfurt para um campo de concentração em Theresienstadt, onde passou quatro anos. Quando Susi era pequena, Levi mostrou a ela um monte de rosas do jardim da família em Buenos Aires e disse, em alemão: “Susi, aqui está Deus”).

Casos como esses mostram que os momentos de silêncio não servem apenas para descansar ou encontrar conforto mental. Afastar-se do excesso de ruídos é, também, uma maneira de reorganizar-se por dentro e até mesmo de encontrar o significado real das coisas. É o que podemos depreender de uma das melhores passagens de Rainer Maria Rilke, quando escreveu as famosas cartas a um jovem poeta.

“As coisas”, disse Rilke, “não são todas palpáveis e dizíveis como normalmente nos fazem crer. A maioria dos acontecimentos é indizível, acontece em um espaço que nunca foi visitado por uma palavra, e mais indizíveis que tudo são as obras de arte, essas existências maravilhosas, misteriosas, cuja vida é perene, ao lado da nossa, que é perecível”.

Felizmente, o jovem alemão que recebeu essas cartas também deixou um testemunho memorável, ecoando aquilo que os relatos de Lota e Susi já nos sugeriam: há momentos em que é preciso simplesmente ouvir. “Afinal, quando um poeta como Rilke fala, os outros devem apenas silenciar”.