Certa vez, numa plena manhã de inverno, esgueirando-me por calçadas antigas (como se eu palmilhasse uma estrada pedregosa de Minas), vi-me perdido entre as vielas seculares de Ouro Preto. Mas quem se extravia por ali, na verdade, se acha: isso porque ela integra aquele rol de cidades onde o indivíduo pode andar a esmo e dificilmente ficar atormentado com essa falta de rumo. Cada nova rua de Ouro Preto é como uma pequena aventura íntima, um achado poético insofismável, para citar Manuel Bandeira, que tanto admirava suas paisagens.
Nessa mesma manhã, por exemplo, deparei-me com uma viela aparentemente improvisada – como se um abalo sísmico tivesse aberto uma pequena fenda entre dois imóveis – onde se instalou um sofá antigo, solene, totalmente abandonado sob o ar frio ouro-pretano. Para os espíritos mais modernos, a cena talvez parecesse até uma intervenção artística. Tanto que não seria surpresa alguma se surgisse ali uma placa dizendo: “isto não é um sofá”, parafraseando o clássico “this is not a pipe”, de René Magritte.
Os mais antigos moradores talvez olhassem de relance e não vissem nada mais do que o simples abandono de um móvel velho e sem uso, devido talvez à enorme dificuldade de carregá-lo pelas muitas ladeiras da cidade para enfim descartá-lo em algum ponto. Já eu pressupunha, literariamente, que a própria cidade fizera aquele sofá brotar do chão, feito uma cena da mais pura literatura fantástica, como se Ouro Preto sempre buscasse meios de fixar nossa atenção sobre ela para admirá-la em todo seu charme antigo e inesperado.
Mas bastou abandonar aquela cena surrealista e esgueirar-me por mais algumas vielas para, de repente, ver outro de seus espetáculos invernais: logo reparei que o céu estendia sobre os telhados uma neblina porosa e densa, feito uma grinalda imensamente luminosa, onde cada partícula de orvalho criava uma malha fina, descendo em espirais gigantescas, como se uma chuva tímida desistisse de ser água para tornar-se apenas ar. E, assim, toda aquela atmosfera gélida já não mais incomodava como fizera na noite anterior, que causara imensa dificuldade para dormir: agora, era uma neblina diferente, como se Ouro Preto permitisse derramar sobre si um espetáculo novo e tangível aos olhos mais atentos.
E foi nesse instante que, bem drummondianamente, observei as casas antigas da cidade, que por vezes “morriam encharcadas de passado e melancolia”, mesmo permanecendo de pé para a massa de pessoas que subia e descia todas aquelas ladeiras, freneticamente. Sua altivez barroca e austera deixava ainda mais latente a névoa que envolvia Ouro Preto, revelando que aquela neblina não era apenas um manto poético ou delicado, mas uma espécie de renovação, um afastar de chuva forte, que permitia enfim alcançar o mistério revelado pelo poeta: descobrir, enfim, por que o amor se banhava na morte.
