(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
sthevodamaceno@maniadesaude.com.br
Ir à praia e se deparar com pessoas lendo na beira do mar não é necessariamente uma novidade. Mas, há poucas semanas, foi impossível não se surpreender com um indivíduo sentado embaixo de um guarda-sol, numa praia capixaba, lendo “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, frente a um mar ensolarado e repleto de banhistas. Afinal, não é todo dia que vemos uma das obras mais densas da história da literatura em um ambiente tão contrastante com o seu enredo. Quem imaginaria o espírito atormentado de Raskólnikov, vagando pela atmosfera sombria de São Petersburgo, sendo evocado naquelas páginas banhadas pela maresia de um verão alegre e tropical como o nosso?
A cena idiossincrática me fez pensar em outras opções de leitura, que talvez se sintonizassem mais com o espírito descontraído daquele ambiente. Um exemplo é o clássico “Devaneios ociosos de um desocupado”, do autor britânico Jerome K. Jerome (1854-1927). Embora muito famoso na Inglaterra de seu tempo, a ponto de ter sido best-seller à época, o livro só chegou ao Brasil recentemente, traduzido por Jayme da Costa Pinto e editado pela Carambaia.
Nele, Jerome traz reflexões divertidíssimas sobre os mais variados aspectos da vida, passando do amor ao azedume, da privação à vaidade, dos modos de se vestir à timidez mundana, como quem senta ao meio-fio e começa a divagar livremente com um amigo dos tempos de colégio. Tudo isso, aliás, partindo de uma bela reflexão sobre o ócio, que, muitas vezes, parece algo verdadeiramente trabalhoso, como alerta o autor. “É impossível desfrutar do ócio quando não estamos diante de uma pilha de trabalho. Não há graça em não fazer nada quando não há nada para fazer. Jogar tempo fora passa a ser apenas mais uma ocupação, e das mais exaustivas. O ócio, como o beijo, é mais gostoso quando é roubado”. Que figura!
Apesar do tom leve e irônico, bem ao estilo inglês, a obra de Jerome K. Jerome não deixa de ser repleta de reflexões profundas sobre a natureza humana e o convívio em sociedade, que acabam compondo, no fundo, a sua grande temática, originando um livro tão despretensioso quanto memorável. Um exemplo similar, no Brasil, talvez seja o nosso grande Mario Quintana, que, além de grande poeta, legou-nos alguns livros praticamente inclassificáveis, a exemplo de Jerome K. Jerome.
Um deles, inclusive, parece tão “desocupado” quanto aquele do escritor inglês. Trata-se “Da preguiça como método de trabalho”, cujo título, por si só, também é bastante sugestivo. Nele, o mestre gaúcho reúne um verdadeiro arsenal de frases, aforismos, tiradas e pequenas crônicas que não apenas divertem, como fazem o leitor pensar bastante sobre um infindável cabedal de temas – a começar pela preguiça, que, segundo o autor, devia ser considerada a mãe do progresso. “Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro”.
Afora as ironias, “Da preguiça como método de trabalho” também reúne diversos momentos poéticos de Quintana, incluindo o espírito de renovação que o ano novo traz consigo. Mas nem poderia ser de outra forma. Como disse o poeta, “a cada primeiro dia do ano o céu é cuidadosamente repintado de azul”.
