“É preciso ter cautela de não abusarmos em querer ser popular, pois um dia poderás te transformar em vulgar”. – J. Bernardo Cabral (Relator-Geral da Assembleia Nacional Constituinte).

Por que não falar de um genial general grego, que poderia ser entendido também como filósofo e até como historiador, se algumas coisas que sabemos sobre Sócrates, saíram de sua pena? E há outra razão, porque em Xenofonte, já está bem estabelecida, embora com as ressalvas devidas, “a ética moderna da perfeita eficiência técnica, isto é, o estar à altura da situação, independente da avaliação em termos de moral universal”, como assinalou Ítalo Calvino, em seu livro Por que ler os clássicos. Assunto de grande interesse em nosso tempo. 
Mesmo que temesse ser injustamente criticado como pernóstico, não contaria até 10 para abordar algo sobre a personalidade de Xenofonte numa crônica, gênero jornalístico mais voltado para assuntos leves, não sendo de bom-tom até abordar laivos de assuntos acadêmicos. E só o faço, porque o nome de Xenofonte vem correndo pelos bares cariocas da Zona Sul. É que uma vestibulanda numa prova para ingressar num curso de filosofia, não contou também até 10 para proclamar que Xenófanes, por odiar os estrangeiros, recebeu o apelido de Xenofonte. E acrescentou do alto de sua sapiência: fonte de ódio de pessoas que não fossem gregas...
Como é óbvio, a candidata colocou os pés pelas mãos, porque Xenófanes, filósofo pré-socrático da Escola Jônica, viveu séculos antes do general Xenofonte, logo não podia ser responsável pelo apelido que nele tascou a vestibulanda. Mas, quem sabe, se ela chegou a essa conclusão risível, porque Xenófanes entendia que a terra é a arqué, isto é, o elemento primordial, segundo a visão filosófica naturalista da Escola Jônica? Com a palavra os filósofos. Pode-se afirmar, porém, que ao lermos os textos de Xenofonte, sobretudo a Anábase, para se verificar, que ele não odiava os estrangeiros. Tanto que, ao comandar hordas de bandidos em Terra estranha, teve consciência de que estava no mau combate. Daí dizer aos sodados sob o seu comando que os oponentes tinham boas razões para matá-los, já que ocupavam pela força as suas propriedades.
Como conhecemos os textos dos filósofos gregos da Antiguidade pelos fragmentos de suas obras ou pela doxografia, isto é, pelo que deles escreveram pensadores mais recentes, vou ter a cara de pau de presumir, que Xenofonte, vulto histórico que me parece ter sido dotado de grande sensibilidade humana, negou-se a aceitar novas missões, como a que levou a efeito nas planícies da Anatólia. É que não acredito na dignidade limitada, em pessoas mais ou menos honestas. Porém creio que somos capazes de arrepender de nossos crimes, passando não mais trilhar o caminho do mal. 

Texto: 20/03/2017