Quem é um pouco mais velho, ou conhece bem o cronismo brasileiro, deve se lembrar da figura saudosa de Otto Lara Resende, um dos “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”, na definição de Drummond (os outros eram Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino). Este epíteto, aliás, era sugestivo: os quatro mineiros saíram de uma Belo Horizonte profundamente interiorana, no meado do século passado, para fixarem seus nomes na história do jornalismo brasileiro, de onde entraram como aprendizes e saíram como lendas.
Principalmente Otto, que foi o menos literário, mas o mais jornalístico do grupo. Há controvérsias, me dirá o leitor atento, pois basta lembrar que o Paulo e o Fernando também trabalharam em jornal a vida inteira e o próprio Otto era um grande escritor. Mas nenhum deles teve uma história tão rica nos jornais e revistas como o autor de “O braço direito”.
Basta lembrar que, num de seus primeiros empregos no Rio, Otto teve a oportunidade de entrevistar Getúlio Vargas, quando ele ainda amargava o fim do Estado Novo. Em determinada hora da conversa, Getúlio referiu-se a si mesmo como “ditador”, termo que jamais havia admitido em público. Mas, nas mãos de Otto, a fala espontânea do futuro presidente suicida tornou-se um furo de reportagem.
E foi só o começo dele no Rio. Otto parecia apenas um jovem repórter, mas já havia atuado em muitos jornais de Minas (onde conviveu com figuras como Drummond, Murilo Mendes, Murilo Rubião, Emílio Moura, Cyro dos Anjos, Pedro Nava etc.) A fama, portanto, era questão de tempo: Otto logo fez seu nome nos grandes veículos da época, como Diário Carioca, Correio da Manhã, Última Hora, Jornal do Brasil, Manchete e O Globo, todos porta-vozes do país em tempos sem internet e redes sociais.
Na revista Manchete, por exemplo, Otto chegou ao posto de diretor. Foi lá que entrou para a História com a famosa entrevista do general Henrique Teixeira Lott, quando este, então Ministro da Guerra, colocou os tanques nas ruas para evitar o golpe que impediria a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart na presidência e vice-presidência, em 1955.
Nos livros didáticos, o feito de Lott é descrito como “movimento de retorno aos quadros constitucionais vigentes”. A frase é do Otto, que conseguiu diminuir a tensão nacional publicando entrevistas com o General direto do seu QG. Uma bomba na época.
Na TV Globo, Otto se distinguiu ainda mais. Com a fama de cunhar ditos espirituosos a cada frase (o que fez Nelson Rodrigues implorar para que houvesse algum escrivão seguindo o Otto dia e noite, a fim de registrar as pérolas), o mineiro fez programas de entrevistas, difundiu a literatura, conversou com os maiores escritores e poetas brasileiros da época, sem deixar de atuar nos bastidores da emissora. Otto fez escola na Globo. Elevou o nível da TV brasileira. Mas ela o afastou do texto.
No fim da vida, entretanto, Otto voltou aos jornais, depois de um tempo obscurecido. Seu retorno foi triunfante como colunista da Folha de S. Paulo, no início dos anos 1990. Otto escrevia uma pequena crônica na página de Opinião do jornal paulista. Mas, aos poucos, elas se demonstraram grandes, tornando-se campeãs de cartas dos leitores da Folha, tamanha qualidade literária.
Os textos de Otto, de tão saborosos, foram parar nas antologias livrescas e serviram da base a uma de suas melhores obras, “Bom dia para nascer”, coletânea organizada por Humberto Werneck. Foi escrevendo para a Folha que Otto teve a dimensão do seu trabalho como jornalista. A chuva de cartas que o jornal recebia o desconcertava. O sucesso era imenso. Nas ruas, todos o reconheciam e o celebravam. Os telefonemas, constantes.
Mas por que a surpresa do Otto se ele era um dos maiores talentos do jornalismo e da literatura brasileira, opinião partilhada ao longo do século por figuras como Rubem Braga, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes? Por que o susto se ele era imortal da Academia Brasileira de Letras, amigo de poderosos, consultor de grandes intelectuais?
Por um fato muito simples: o feedback do leitor. Talvez Otto tivesse desacostumado a ser tão lembrado pelas pessoas ou, de fato, nunca houvesse tido tanto retorno sobre aquilo que escrevia. Mas era notável como todo aquele furor provocava nele grande admiração.
O que é compreensível, aliás. Não há valor em texto algum se não houver quem o leia. Vide a famosa definição de Borges para a magia da escrita: “Um livro, um jornal, uma página escrita, são apenas objetos físicos, um conjunto de símbolos mortos, até que aparece o leitor e as palavras saltam para a vida”.
Em muitos sentidos, a definição de Borges e a história de Otto servem para ilustrar a sensação que nós, do Mania de Saúde, temos ao receber os vários elogios e ponderações dos leitores, seja nas redes, seja na rua (onde eu, particularmente, sempre estou recebendo). Nessas horas, é impossível não lembrar do Otto e de sua humildade ao constatar que o leitor, sim, é o maior motivo de orgulho, não o nosso trabalho.
Quando entrevistei Humberto Werneck para o Mania de Saúde, disse a ele que, se eu tivesse 0,1% do talento do Otto, já me consideraria um profissional completo. Felizmente, não precisei desse milagre para igualar-me ao Otto ao menos num aspecto: o privilégio de sentir a mesma alegria que ele sentiu, que é a de ver tantos leitores dando sentido a cada letra, a cada frase que você escreve.
Essa experiência é única. E, como meros operários da palavra e da imagem, só podemos manifestar aos leitores do Mania de Saúde o nosso muito obrigado por essa acolhida tão generosa durante tantos anos. 
O aniversário não é só nosso: é de vocês.

Texto produzido em: 20/05/2017