O Mania de Saúde entrevistou a fundadora da Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC), Tania Paris, que há 13 anos capacita educadores para que desenvolvam habilidades emocionais e sociais em crianças por meio do programa de Educação Emocional “Amigos do Zippy”, que representa com exclusividade no Brasil. A ASEC disponibiliza também o “Amigos do Maçã” para crianças na faixa dos 9 anos, o “Passaporte: Habilidades para a Vida” para jovens a partir dos 11 anos e outros programas para Educação Emocional de pais e adultos. Confira a entrevista exclusiva.  
Mania de Saúde – Como trabalhar os sentimentos e as emoções de crianças e jovens em vários tipos de ambientes?
Tania Paris –
Da mesma forma que nos preocupamos com a educação acadêmica de crianças e jovens, é importante dar atenção à educação emocional. Nascemos com instintos que nos impelem a comportamentos de agressão ou fuga quando estamos em dificuldade. E, nessas situações, experimentamos os mais variados sentimentos que nos incomodam e trazem alguma forma de sofrimento emocional. Então, nos vários ambientes que eles frequentam, notadamente em casa e na escola, é importante que pais e educadores tenham presente o conceito de que esses sentimentos podem ser inevitáveis, mas que é preciso lidar positivamente com eles. Ensinar a lidar com sentimentos segue uma sequência: reconhecer o que está sentindo, nomear (o que ajuda na comunicação e na própria aceitação), criar diversas estratégias para se sentir melhor e escolher uma estratégia adequada para aquela situação. Esse é o processo que seguem os programas de Educação Emocional que a Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC) implementa, capacitando professores para utilizar essa sequência com as crianças em todos os momentos em que têm que enfrentar dificuldades. Com a repetição, nas aulas e em situações do cotidiano, ele passa a ser um hábito de saúde emocional, que permanece pelo resto da vida pois traz bem-estar e mais sucesso na resolução de problemas. E os pais são convidados a adotar o mesmo em casa, o que potencializa os resultados.
Mania de Saúde - Como a questão emocional influencia no aspecto educacional e social, ou seria o contrário?
Tania Paris –
Dificuldades acadêmicas ou de interação social podem resultar em sentimentos desagradáveis, que podem ser mitigados se a pessoa tiver adquirido habilidades emocionais; mas, ao contrário, se a pessoa não souber como lidar com eles, podem levar a problemas emocionais, até bem graves. Um problema de interação social muito discutido no momento é o bullying que corrói a autoestima da vítima, podendo levá-la a atos de violência contra si mesma ou terceiros. E problemas emocionais impactam nossa capacidade de lidar com os fatos da vida e com as pessoas que nos cercam. Em síntese, dificuldade em lidar com sentimentos reduz a eficácia para lidar com problemas e desafios, inclusive os acadêmicos. Diversas pesquisas comprovaram que os jovens que participam de programas de desenvolvimento emocional e social têm melhores resultados nos testes escolares.
Mania de Saúde – As redes sociais ajudam ou atrapalham a autoestima dos jovens? Tem quem viva para ter “curtidas e seguidores”, o que não é salutar?
Tania Paris
– As redes sociais não são por elas mesmas algo bom ou ruim para a autoestima; são apenas ferramentas - mas muito potentes - que engajam seguidores e potencializam efeitos de comportamento. Se utilizadas para agredir num processo de bullying, por exemplo, aceleram os efeitos dessa tortura. Nas redes sociais se dispensa o ‘olho no olho’ da comunicação humana. É fácil simular, mentir e é possível fazer uma maldade sem olhar o dano que está ocasionando na vítima. Poderíamos dizer que, além de todas as vantagens de rapidez e disponibilidade, também dispensam uma série de habilidades de comunicação. Ou seja, trazem pretensos substitutos para a comunicação pessoal presencial, que, muitas vezes é tão difícil por envolver sentimentos, podendo atrofiar as habilidades de relacionamento. Nesse sentido podem ser bastante danosas.     
Mania de Saúde - Por que vivemos em uma constante vulnerabilidade emocional?
Tania Paris –
Porque somos dotados de instinto de preservação, que nos alerta, por meio de sentimentos, quando algo nos ameaça. Esse processo de alerta pode vir de uma ameaça física, como ter medo quando alguém lhe aponta uma arma; mas funciona também para tudo o que valorizamos e incorporamos como sendo parte de nós mesmos, como, por exemplo, podemos valorizar a imagem que os outros têm de nós e nos alarmar a cada ‘ataque’ de uma palavra ou de um olhar. Dessa forma, quanto maior o conjunto do que é muito valorizado por cada um, maior a reação de nosso instinto de preservação, que nos protege como se fosse questão de vida ou morte; o que nos torna vulneráveis emocionalmente.
Mania de Saúde – Como pais e professores podem contribuir no desenvolvimento humano das crianças? Quais os papéis que cabem a cada um?
Tania Paris –
Existe um conjunto de habilidades emocionais e sociais que atuam como fatores de proteção da saúde mental das pessoas. Pais e professores podem educá-los desde muito cedo, desenvolvendo essas habilidades. Elas são aprendidas naturalmente, em alguma extensão, pela observação do comportamento dos adultos com quem convivem. Mas existem processos estruturados para que sejam adquiridas numa ordem lógica e antecipem o aprendizado de habilidades que não estão sendo demandadas no momento, mas que podem ser necessárias quando menos se espera, como resiliência para enfrentar perdas significativas. Os programas que mencionei têm a finalidade de proporcionar esse desenvolvimento. É papel dos pais incutir valores e desenvolver seus filhos, mas é também papel da escola o desenvolvimento integral. Uma classe costuma conter uma diversidade maior do que o ambiente que a criança tem em família, cabendo ao professor ensiná-los também a lidar positivamente com as diferenças. Em resumo, esse papel é tanto das famílias quanto da escola.
Mania de Saúde - As novas tecnologias são responsáveis de alguma forma pela insensibilidade das pessoas?
Tania Paris –
Afirmo o mesmo que disse sobre as redes sociais. As novas tecnologias são apenas recursos, mas podem, sim, manter as pessoas mais distantes do ponto vista humano e esse distanciamento torná-las insensíveis. Sensibilidade requer empatia e empatia requer alguma forma de presença, até mesmo virtual.  

Texto produzido em: 26/04/2017