No ano passado, as livrarias brasileiras receberam uma obra que faltava nas estantes dedicadas ao rock nacional: “Infinita Highway - Uma Carona Com Os Engenheiros do Hawaii” (Ed. Belas Letras), de Alexandre Lucchese. Com ela, o jornalista paranaense preencheu uma lacuna sentida há muito tempo pelos que apreciam o trabalho do grupo e do seu líder, Humberto Gessinger. 
Afinal, desde os anos 1980, o músico gaúcho é tratado como um dos grandes letristas do rock brasileiro, ao lado de Renato Russo e de Cazuza. Porém, ao contrário destes, que já possuem uma considerável bibliografia, faltava aos leitores uma obra que detalhasse a trajetória de Humberto e dos Engenheiros, sobretudo em sua fase áurea, quando contava com o baterista Carlos Maltz e o guitarrista Augusto Licks. Foi essa formação, aliás, que levou o trio a ser classificado pela extinta revista Bizz, nos anos 1990, como a maior banda do Brasil. 
Para essa jornada, Alexandre Lucchese não só ouviu os três músicos, como fez uma alentada apuração junto a amigos, ex-produtores, empresários, roadies, familiares, entre outros, num trabalho jornalístico impecável, que desvendou os bastidores dos Engenheiros do Hawaii e ainda trouxe o relato mais fiel sobre a conturbada saída de Augusto Licks, no auge da banda, em 1994. 
Além disso, a obra mapeia o cenário do rock gaúcho dos anos 1980, demostrando que o estilo, naquela época, não estava vivo apenas em Brasília e no Rio de Janeiro, como muitos supunham, mas também no sul do país.
O livro é entrecortado ainda por depoimentos comoventes de alguns fãs, que tiveram suas vidas transformadas ao se envolverem com o grupo. 
É um pouco dessa história que o próprio autor contou ao Mania de Saúde, nesta entrevista exclusiva, feita por e-mail. Vale a pena conferir.
Mania de Saúde – Como se deu sua relação com a banda? Em que momento percebeu que você também faria parte dessa história?
Alexandre Lucchese –
O primeiro disco da minha vida foi “O Papa é Pop”, que comprei quando tinha oito anos. De lá para cá, sempre acompanhei o grupo, às vezes com maior ou menor intensidade. Foi a referência artística mais fundamental da minha vida, a partir da banda descobri referências musicais e literárias que me impulsionaram a ser quem sou hoje, a trabalhar com jornalismo cultural. Sempre achei que a história da banda daria um grande livro, até porque havia muitas questões em aberto, mas jamais me achei capaz de escrever uma obra como essa. No final de 2014, comecei a preparar um especial para o Zero Hora, o jornal em que trabalho, sobre os 30 anos da banda. Na pesquisa, me dei conta de que ninguém havia feito ou estava para fazer um livro ou documentário sobre o grupo. Como eu já havia começado a pesquisar, me dei conta de que era a pessoa mais próxima de preencher essa lacuna, então fui adiante.
Mania de Saúde – O livro é muito bem arquitetado, com várias histórias reveladoras, além dos relatos dos fãs, que fizeram uma bela homenagem. Como foi essa elaboração do texto? 
Alexandre Lucchese –
Quando comecei a pesquisa para o livro, já conhecia muita coisa, mas foi um mergulho muito intenso, por mais de um ano, em que estava imerso todo dia no clima daqueles anos 1980 e 1990, entrevistando gente, lendo, vendo fotos e assistindo a vídeos. Quando finalmente sentei para escrever, o texto saiu muito rápido, como um jorro, quase em um fluxo de consciência. Não teve rascunho. O livro já estava pronto na minha cabeça, era só transferi-lo para o papel. Claro que precisei reescrever alguns trechos e corrigir algumas coisas, mas a base estava ali. Para dar mais dinâmica ao texto, fui mudando os pontos de vista. Às vezes o leitor fica mais perto de mim, ou do Humberto, ou de um produtor, ou de um roadie... Ou seja, a cena é vista por olhos diferentes. Como tinha feito muitas entrevistas, foi um exercício possível, que deu mais movimento à narrativa. Sobre os relatos, me dei conta de que os Engenheiros tiveram e ainda têm uma comunidade grande de fãs, mas os números não conseguiam demonstrar o amor que essas pessoas sentiam pela banda. Era preciso mais que isso, era necessário mostrar como o grupo era, de fato, parte fundamental de suas vidas. Por sorte, na época da escrita eu estava lendo o livro “Vozes de Tchernóbil” (de Svetlana Alexiévitch, vencedora do Nobel 2015), que é composto exclusivamente por relatos. Aí me dei conta de que o formato ideal para cumprir com meu objetivo seriam os relatos. Assim parti para as entrevistas com os fãs.
Mania de Saúde – Como foi a recepção do Humberto, Maltz e Augusto ao livro? Teve algum retorno deles? E dos fãs?
Alexandre Lucchese –
O Humberto disse desde o princípio que não leria o livro. Entendo a posição dele. Creio que não gosta de se influenciar sobre o que pensam do seu trabalho, e faz isso não lendo. Mas é um cara que sempre me ajudou com tudo e jamais quis controlar o processo. Ficou uma relação bacana, e ele me deu um estímulo importante para mergulhar no projeto do meu novo livro (que não tem nada a ver com música). Já o Maltz leu e gostou bastante do resultado, até escreveu pelo Twitter que o livro deu a ele uma nova visão sobre a própria carreira. Sobre o Augustinho, consegui encontrá-lo pessoalmente para entregar um exemplar, aí conversamos longamente duas vezes, sobre assuntos variados. O Infinita trata de temas talvez dolorosos para ele, então acredito que não o lerá. No entanto, ele me disse que gostou muito da entrevista que fizemos por e-mail, e que isso o estimulou até mesmo a atender outros jornalistas. Os fãs têm sido incríveis. Escrevi sempre muito próximo a eles, porque a comunidade de admiradores dos Engenheiros é muito dedicada, e eu não queria fazer um livro redundante, por isso conversei muito com os fãs para saber o que já conheciam e o que faltava esclarecer sobre a banda. Tenho profundo respeito e admiração pela comunidade.
Mania de Saúde – A separação do Augusto sempre foi um tema espinhoso, mas o livro trouxe, pela primeira vez, o relato mais sóbrio sobre o fato. Como você se sentiu ao fazê-lo?
Alexandre Lucchese –
A maior surpresa foi o modo sincero e direto com que Humberto e Carlos falaram comigo sobre o episódio. Não quiseram me esconder nada a respeito disso, embora fosse possível sentir que não era fácil para eles abordar o tema. Ambos foram muito generosos em relação a tudo, mas especialmente em relação a isso. Para mim, foi o ponto mais delicado de tratar, pois não queria que fosse um livro de fofoca, de surfar em conflitos, mas também não havia como ignorar esse ponto da história deles. Tentei chegar mais próximo o possível da verdade, ouvindo todos os lados, consultando material de imprensa e o próprio processo judicial enfrentado depois da separação. Fiquei satisfeito com o que escrevi. Não queria apontar bandidos nem mocinhos, apenas expor fatos. É isso que está no livro.
Mania de Saúde – Humberto é comparado por muita gente a Renato Russo e Cazuza, por ser um dos grandes letristas do rock nacional. A que se deve esse posto e essa longevidade da obra do Humberto? São as letras, o carisma, a sofisticação musical ou o jeito de lidar com o mercado?
Alexandre Lucchese – Acho que você está na pista correta. A combinação de todas essas características faz Humberto continuar sendo o que é. No entanto, se for para apontar algo que se sobressai, é sua dedicação em fazer boas canções. Todo o resto está a serviço disso. É a música que vai na frente, e o engenheiro-mestre vai dando um jeito de fazê-la brilhar no meio dos novos contextos e palcos que vão surgindo. Das entrevistas com outras pessoas, sobressai sempre a imagem de uma pessoa extremamente inteligente e dedicada ao seu trabalho.
Mania de Saúde – A pergunta que não quer calar de muitos fãs: há chances ou não do GLM se reunir? 
Alexandre Lucchese –
Acredito que não. Cada um dos músicos está dedicado a projetos próprios. Talvez ainda role algo, em caráter episódico, em algum festival, evento beneficente ou coisa parecida. Mas não acredito em um novo disco ou turnê.

Texto produzido em: 20/02/2017