Asociedade atual está vivendo um período de emergência de novos conceitos, muitos deles necessários para a manutenção de um estado de saúde ideal. Quem nunca ouviu falar do termo “slim” (palavra estrangeira que vem sendo incorporada ao nosso dialeto e que, ao pé da letra, traduzimos como “fino”)? 
Contudo, ser slim é muito mais do que ser magro ou fino. Até porque a figura do magro saudável muitas vezes não representa uma verdade científica. Ser slim é, na verdade, alcançar um estado de equilíbrio entre o corpo e a mente para, de fato, gerar saúde. Estamos, portanto, diante do surgimento de um novo paradigma, onde devemos buscar bem-estar físico e mental sem rótulos.
Hoje em dia, é de domínio comum que o exercício físico representa um dos caminhos para alcançarmos a perfeição corporal e o componente estético, mas sobretudo nos trazer o equilíbrio entre a mente e o corpo. Nesse momento, surgem algumas dúvidas: será, por exemplo, que todos estão aptos a se exercitar? A população está consciente do conceito de atividade física e exercício físico? Indivíduos cardiopatas podem praticar exercícios?
Para responder a estas perguntas, fizemos uma visita à MedVida, clínica cardiológica que tem se tornado referência em nossa região, onde entrevistamos o médico cardiologista Dr. Luis Guilherme Campos Alberto, diretor clínico e proprietário da MedVida. Ele fez importantes ponderações para os nossos leitores e explicou conceitos de alta relevância da cardiologia contemporânea, como a teoria do coração periférico, que está mudando a mentalidade de muita gente. Vale a pena conferir.
Mania de Saúde – Todos hoje estão tentando ser ativos. Mas o ato de se exercitar está intimamente ligado à saúde do coração. Como você tem visto essa tendência do slim?
Dr. Luis Guilherme –
É importante esclarecer que o conceito de magreza não significa apenas poder vestir um manequim 36. O que precisamos ter é um equilíbrio das nossas bioforças, ou seja, componentes de massa magra, massa gorda e proteína. Isso precisa estar equilibrado dentro do seu biótipo para que você possa gerar saúde. Não adianta ficar magro demais, perder muito massa magra, sem ter saúde. Isso deixa a pessoa mais suscetível a infecções, por exemplo. Equilíbrio é a chave de tudo. Todos, hoje, se exercitam ou querem se exercitar. Mas, falando em saúde, precisamos ressaltar a diferença das atividades para cardiopatas e não cardiopatas.  
Mania de Saúde – Como assim?
Dr. Luis Guilherme –
Hoje a cardiologia contemporânea fala muito da teoria do coração periférico. Todo mundo sabe que o coração fica dentro do tórax, geralmente voltado mais para a esquerda. O coração periférico seria como se a nossa musculatura funcionasse como uma segunda bomba em nosso corpo. O coração é a nossa grande bomba, que vai bombear o sangue para todos órgãos e tecidos, mas você teria a musculatura funcionando como uma segunda bomba, ou seja, algo que vem para ajudar o coração. Isso é tudo o que um cardiopata necessita. Se o coração está doente, ele precisa de um auxiliar. Esse seria o coração periférico. Mas como adquiri-lo? Através da prática de exercício físico. O coração periférico deixa o cardiopata completamente assintomático, permitindo que ele ande de bicicleta ou corra pequenas distâncias alternando com caminhada. Mas, para chegar a esse ponto, tem que haver uma orientação médica, se preparar para o objetivo.
Mania de Saúde – Isso reduz a mortalidade? Diminui o risco de infarto, por exemplo?
Dr. Luis Guilherme –
Sim. Para se ter uma ideia, o exercício físico hoje faz parte do receituário da cardiologia. Ele é tão importante quanto à prescrição de um remédio. Mas o indivíduo cardiopata obrigatoriamente tem que ter uma orientação médica. Se for do cardiologista, melhor ainda. Porque você tem limitações impostas pelo próprio coração em tolerar ou não a intensidade daquele exercício. Existe hoje um braço da cardiologia que é chamado de reabilitação cardiovascular. O que seria isso? É pegar os cardiopatas e colocá-los num programa supervisionado de exercícios. Porque atividade física é tudo o que a gente faz. Levantar, sair do carro, ir para o trabalho. Isso é atividade. Estou colocando meu corpo físico para ser ativo. É diferente de estar sentado no sofá vendo TV. Mas quando a atividade física passa a ser regular e orientada, ela se torna exercício. Ou seja, caminhar 20 minutos todas as manhãs, depois fazer abdominais etc. A reabilitação cardiovascular nada mais é do que impor determinadas intensidades e graus de exercício para os cardiopatas. Isso reduz a mortalidade, o risco de infarto, de AVC, entre outros problemas. Exercício físico ajuda no controle de peso. Melhora a questão dos níveis glicêmicos, dos níveis de colesterol e triglicerídeos, diminuindo a incidência de infarto agudo do miocárdio e de diabetes mellitus. O exercício para o cardiopata tem um impacto tão grande quanto um remédio – e é mais barato. Isso reflete até na economia. Cardiopatas ativos, supervisionados, diminuiriam as lotações nos hospitais. Leito no Brasil, hoje, é um desafio. Uma boa ideia para o poder público seria abraçar essa causa e promover exercícios físicos em locais seguros.
Mas o importante é que isso seja regular. Só assim alcançamos os chamados efeitos crônicos do exercício. O efeito agudo é aquela atividade de alta intensidade que você faz de forma irregular. É o indivíduo que não se exercita a semana inteira e no domingo vai jogar futebol. Ele terá só o efeito agudo: vai aumentar a pressão arterial, a frequência cardíaca e a temperatura corporal, entre outras variáveis hemodinâmicas, mas só ali. Isso pode ser lesivo e até levar à morte súbita. O correto é o exercício regular, porque aí passa a existir o efeito crônico, que é a redução dos níveis de pressão arterial, de frequência cardíaca em repouso e durante a atividade física. Essa aquisição do efeito crônico é lenta e progressiva. Demanda persistência e orientação.
Mania de Saúde – E os não cardiopatas?
Dr. Luis Guilherme –
Do ponto de vista médico, não é obrigatório, mas eu acho interessante o não cardiopata ter pelo menos uma avaliação médica simples. Porque existem algumas doenças cardiovasculares que podem ser congênitas ou hereditárias. Muitas delas, às vezes, são assintomáticas e as pessoas não sabem. E algumas dessas patologias, como a cardiopatia hipertrófica, pode levar a pessoa a passar mal durante o exercício físico e evoluir até para a morte súbita. A realização do diagnóstico da cardiopatia hipertrófica é extremamente importante e, de certa forma, é fácil de realizar. Numa visita ao cardiologista, com a realização de um eletrocardiograma e até mesmo de um ecocardiograma teríamos uma orientação diagnóstica, afastando, dessa forma, a maioria das cardiopatias graves e liberaríamos a pessoa para iniciar o exercício físico.

Texto produzido em: 28/06/2016