A Sylvio Muniz, in memoriae
                                    
“Mortos não são os que em doce calma 
desfrutam a paz da sepultura fria. 
Mortos são os que têm morta a alma,
e vivem, todavia.” 

Sinhá Vitória é personagem de Vidas Secas, narrativa ficcional de Graciliano Ramos, cuja primeira publicação é datada de 1938. O romance é narrado em terceira pessoa e, curiosamente, a linguagem dos personagens e do autor se completam, se complementam, conduzindo a narrativa ao registro de um olhar ideológico, dilacerando as fronteiras ficcionais desta narrativa.  
O livro está dividido em treze capítulos, cada um constituindo um texto em si, dando à narrativa o caráter de contos, escritos e publicados de forma avulsa e só depois organizados na forma de um romance. A ligação entre os capítulos é instituída pela temática, sendo que a análise da condição humana se torna um dos traços da universalidade da ficção de Graciliano Ramos. 
O texto pode ser lido em quatro diferentes momentos: no primeiro está presente a decadência da ordem masculinista a partir da personagem Fabiano. No segundo, podemos ler a dimensão do sonho e a capacidade discursiva da personagem feminina, que pela enunciação consolida-se como voz transgressora dos valores hegemônicos. Em terceira instância, verifica-se a configuração de elementos históricos, sociais e políticos, marcadamente nordestinos e a acentuada cultura logofonofalocêntrica ocidental. Presente também a visibilidade da literatura regional do Nordeste, bem como do próprio Nordeste, fazendo uma representação fiel de sua realidade.
O texto de Graciliano apresenta linguagem simples e enxuta de recursos linguísticos, mas inclui as marcas da oralidade local, como se houvesse uma intenção do autor de torná-la tão agreste quanto é o ambiente que comporta o cenário da história e à semelhança dos personagens aí representados.
Sao marcas da ficção graciliana as desigualdades nas relações sociais, principalmente no que se refere à exploração do trabalho humano pela sociedade capitalista. São também marcas da obra a capacidade de descrever, fotograficamente e com  objetividade, o ambiente, as personagens, as mazelas sociais, fatos e realidades prenhes de sordidez. Esses traços fazem da obra um relato  contundente, fazendo com que Graciliano Ramos seja considerado um dos principais expoentes do “romance de 30” no Brasil. 
Em Vidas Secas, a natureza comanda o tempo, na sucessão de dias e noites, seca e chuva. Esse é o relógio que guia a vida severina no trato com a terra e os bichos naquelas paragens. 
Sinha Vitória sonhava e acreditava, em seu sonho: mudar aquela realidade. O sonho era sua perspectiva, o recurso para evadir daquele agreste sertão. Sua capacidade de sonhar, oportunizava-lhe desejar a “cama de couro”, sonho único de consumo. Pelo sonho, era possível vislumbrar os  mecanismos para a realização dos seus desejos. Os sonhos alargavam-lhe os espaços, fazendo-a mover-se no sentido da superação das limitações em que vivia e das convenções que as sustentavam. Vitória acreditava em poder encontrar meios para transformar a sua vida e a vida da sua família. Não conseguia resumir sua existência às duras penas que vivia no sertão, nem às suas opressivas leis. Ao contrário do seu marido Fabiano, Sinhá Vitoria não se sentia plantada ali, nem se convencia de que os seus filhos estivessem predestinados a se vitimarem naquela miséria. Para Vitória,  literalmente “o sonho era o limite”.