Conta o mito que Lilith, a lua negra, nascera ao mesmo tempo que o Sol e, em igualdade de condições, com ele reinaria sobre a Terra. Acontece que no momento de acaslarem-se, Lilith se recusa a deitar-se sob Adão, vendo nesta posição um indicativo de inferioridade. Discutem. Lilith não se submete. E some. À distância, mas não distante, vigia o passo a passo dos passos de Adão. E assim espreitava cada ato adâmico. 
Adão, sozinho, desprovido da ousadia de imaginar, de criar, de reverter situações, entra em profunda depressão ¬ até hoje a psicanálise busca entender este estado da alma. O Senhor,  consternado, entendeu que era preciso rever seu projeto. Era preciso dar a Adão outra companheira. 
Entendeu o Senhor que é muito difícil viver só num mundo que estava sendo feito para se viver a dois, ¬ teoria da autora deste texto. Nasce Eva. Vendo-a, Adão exclama: “Esta sim, é carne de minha carne, é osso dos meus ossos”. “Esta, sim”, por que Adão? Havia outra?
Lilith não gosta do que vê: Adão e Eva, de mãos dadas, flanando pelos campos paradisíacos. Ardilosamente monta um projeto. Objetivo: induzir Eva a induzir Adão a comer do “fruto proibido”, o fruto da árvore do bem e do mal, fruto cujo cheiro e sabor, se sentidos e saboreados, abririam, na consciência, sentidos vitais. Metodologia usada: induzir Eva a induzir Adão a comer do fruto proibido. E Adão come ¬ o fruto. E o Senhor, surpreendido com a ousadia da transgressão, expulsa o casal do Paraíso. 
Adão, temperamento que teria sua representação, posteriormente, em Epimeteu, o deus que vê depois, impõe a Eva uma abstinência sexual de duzentos anos, segundo a medida do tempo  daquele momento. A abstinência foi para Eva, porque era com Lilith que ele transava a céu aberto, monitorados pelo desejo.
A transa de Adão com mulheres tão diferentes determinou o dna do feminino: as mulheres que nascem com o dna de Eva são passivas, submissas, incapazes de se imporem, aceitam mandos e comandos. As mulheres, dna lilitiano, são encontradas aqui. Ali. Lá. Vão para a luta. Dizem não às imposições sociais inconsequentes que as querem submeter. Exigem e impõem direitos. Insubmissas, querem carinhos e exclusividade. Preferem-se sós, à divisão. São parceiras. Desafiam conceitos e preconceitos sociais. São elas que mofificam o perfil do mundo. Acreditam que amar é compartilhamento. E quando amam. o fazem profundamente. Tudo nelas é intensivo, é pleno. 
Traçando um paralelismo, diremos que ambas sofrem: as “evas”, entretanto. acreditam que a vida é assim: dor, desilusão, aceitação, passividade. As lilitianas reagem. Vão à luta. Sabem que são maiores do que a dor. Curtem-na e nela encontram energias para cada dia. 
É a partir de um pensar que traz elementos construtores da “teoria da conspiração”, e analisando as conceições, gabrielas, vitórias, deodorinas/diadorinas, iracemas, esmeraldinas e macabeas e outras não evas presentes na literatura ficcional brasileira, estamos desenvolvendo um ensaio em que mulheres, desconstruindo as armadilhas do antropocentrismo, se fazem reconstrutoras de novos tempos.  Aguardemos!

Texto: 20/08/2016