O conhecimento científico do impacto dos disruptores endócrinos (DE) sobre a saúde vem crescendo nos últimos anos. Os DE são definidos como “substâncias químicas exógenas (não naturais) que interferem com qualquer aspecto da ação hormonal”. Os hormônios são substâncias químicas naturais produzidas por uma série de glândulas endócrinas e são essenciais para o desenvolvimento normal do corpo e do cérebro, para a função reprodutora e para regular a resposta às diferentes exigências nutricionais (por exemplo, fome, inanição, obesidade etc.). 
É o que nos explica a médica endocrinologista Dra. Renata Caraline. “Em outras palavras, os hormônios são absolutamente essenciais para nossa sobrevivência. Ao interferir com o sistema endócrino do corpo, a exposição aos DE pode perturbar muitas destas funções e ser prejudicial a nossa saúde. Geralmente, os DE perturbam o sistema endócrino imitando ou bloqueando um hormônio natural. Desde 1940, houve um aumento exponencial no número e abundância de produtos químicos produzidos, alguns dos quais são liberados (intencionalmente ou não) para o meio ambiente. Estima-se que, globalmente, mais de 24% das doenças e distúrbios humanos são atribuíveis à fatores ambientais e que o meio ambiente desempenha um papel em 80% das doenças mais mortais, como câncer, doenças respiratórias e cardiovasculares. O aumento na taxa de doenças endócrinas, como distúrbios pediátricos endócrinos, problemas reprodutivos masculinos, puberdade precoce, desenvolveu-se em paralelo com o aumento da produção de produtos químicos. Os DE constituem um problema global e onipresente. A exposição pode ocorrer em casa, no escritório, no campo, no ar que respiramos, nos alimentos e na água que consumimos. Os DE são encontrados em muitos produtos de uso comum ou que estejam ao nosso redor, seja no ambiente doméstico ou profissional. Por exemplo, os produtos infantis, eletrônicos, os recipientes de alimentos, os produtos de higiene pessoal, têxteis/vestuário e de construção, são parte regular da vida cotidiana em todo mundo. Alguns exemplos comuns incluem o DDT e outros pesticidas, bisfenol A (BPA) e ftalatos. O BPA encontra-se em uma variedade de produtos para crianças, recipientes de alimentos e revestimentos de alimentos enlatados. Atualmente, produtos alternativos sem o BPA (BPA-free), feitos de materiais diferentes, encontram-se à disposição. Porém, embora a introdução de recipientes de alimentos sem BPA no mercado global seja claramente vantajosa para a redução da exposição humana, o BPA permanece em alto volume de produção, e sendo assim, a contaminação ambiental é um problema persistente. Outra preocupação é que há evidências crescentes de que os substitutos do BPA também são DE”.
Dra. Renata revela que, além dos DE conhecidos, suspeita-se da existência de inúmeros outros que ainda não foram identificados. “A exposição a substâncias químicas ambientais começa desde o útero materno e dura para toda a vida. Os consumidores têm pouca ou nenhuma alternativa sobre se expor ou não aos DE, além de, geralmente, não haver informação suficiente disponível sobre os componentes químicos em vários produtos. Alguns destes químicos são liberados no ar e permanecem no ambiente. Com os alertas contínuos da comunidade médica mundial sobre os efeitos prejudiciais dos DE à saúde humana, é imprescindível que as políticas públicas se fundamentem nas mais recentes evidências científicas e reconheçam a necessidade de proteger os seres humanos e os ecossistemas”.

Texto produzido em 23/08/2019