Na crônica do mês passado, disse com outras palavras aqui no Mania de Saúde, que Xenofonte tinha consciência dos seus crimes como general a defender interesses extremamente canalhas dos gregos, em prejuízo de outros povos. Daí alertar os seus comandados, nas planícies da Anatólia, que “os oponentes tinham boas razões para matá-los, já que ocupavam pela força as suas propriedades”. Seguia, assim, o grande cabo de guerra a moral técnica e pragmática de fazer bem as coisas que têm de ser feitas, independente da avaliação moral dos atos praticados. Linha de comportamento idêntica a seguida, por exemplo, pelos pilotos que jogaram bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, matando aos milhares homens, mulheres e crianças.  
Xenofonte, sem dúvida, praticou na Antiguidade, o que sempre ocorreu ao longo da caminhada humana no planeta Terra, pois, na maioria das vezes, atos de tal natureza são perpetrados instintivamente. Afinal, o homem é o lobo do homem. Todavia, a briga interior por ter errado e a confissão até para os seus soldados foi um dado incomum nos anais da história. A coragem de admitir o crime, embora justificado pelo dever de realizar o que se tem que fazer. Desincumbir-se do dever de ofício, ainda que claramente consciente do mal praticado. Espantosamente, em torno de 400 anos antes de Cristo, Xenofonte já antecipava a “moral” do nosso tempo. Parece ter vivido o drama dos que têm sensibilidade fazendo o que está errado ainda que conscientes da gravidade do seu erro. Na Modernidade e na Pós-Modernidade, tais atos estão sendo cinicamente banalizados. Tornaram-se tão naturais, que já não mais desencadeiam os dramas de consciência. Parece-me que a palavra de ordem dos dias atuais é fazer bem o que se tem de fazer para manter o emprego, para ter votos, para ter dinheiro, para ter poder, para ter prazer, para gozar a vida sem qualquer limite.
Fico perplexo quando vejo certas pessoas tidas como honestas em tiradas de humor afirmarem que Sócrates achava a virtude um vício. E que nem mesmo sabia de fato o que era a virtude. E que pelo menos assim pensava o mestre de Platão e Aristóteles quando era soldado sob o comando de Xenofonte. E há ainda em nossos dias os que acham correto a relativização da moral, segundo uma leitura antropológica equivocada. Em consequência, muitos caminham pelas diretrizes de uma certa “moral” extremamente imoral, fazendo o que se tem de fazer para se dar bem. Aquele se dar bem que é a negação do Bem. O Bem que se manifesta, sobretudo, no amor ao nosso semelhante, reflexo do nosso autêntico amor a Deus.
Parece-me que hoje prepondera certa “moral” imoral. E que leva a ética não mais ao estudo das virtudes, mas a tentativa de tudo sabendo sobre as virtudes e vícios humanos encontrar as habilidades para lidar com tal situação. Melhor dizendo: administrar o entredevorar para que as virtudes não sejam totalmente exterminadas pelos vícios. Aplaudir as virtudes e ter complacência com a desonestidade encarada como algo natural para ser administrado. Daí o Estado enveredar pelo caminho de administrar ou mesmo participar dos vícios humanos, em nome de uma leniência positiva. A roubalheira e a escalada do banditismo para elevadíssimas esferas são as consequências mais claras dessa visão distorcida.

Texto: 20/04/2017