Quem me lê neste espaço, ou me conhece há algum tempo, deve saber da minha ligação com a poesia. Pois bem. Hora ou outra algum amigo me pergunta qual é a graça de ler poemas ou de valorizar poetas mais do que algum ídolo da atualidade. Vou dizer o por quê. Mas, antes, preciso fazer um adendo. Ou melhor, uma confissão: tenho a maior pena dos jovens que idolatram certos youtubers e suas vidas vazias. Agora pouco me deparei com o vídeo de um deles, bastante sugestivo. O indivíduo filmava o próprio quarto, mostrava onde dormia e de que maneira gravava os próprios vídeos, como se o seu modo de viver (tão banal!) tivesse alguma conotação transcendente e metafísica, capaz de modificar, para melhor, a vida do espectador. É triste. Mas sigamos.
Não é muito difícil entender o prazer do poema. (Esta expressão, aliás, é o título de uma boa antologia organizada pelo Ferreira Gullar, da qual falaremos mais adiante). Porque um poema, basicamente, é uma imagem, ou uma sucessão de imagens, mas que, transmutadas pela alquimia verbal dos poetas, comovem, instigam e, não raro, consolam. É um prazer diferente.
Mario Quintana, por exemplo, acreditava que, fora da poesia, não havia salvação. Só nela conseguíamos “deixar rugir o caos, atônito”. Mariane Moore, famosa escritora americana, sintetizou muito bem o sentimento de Mario sobre poesia: “Lendo-a, a gente acaba descobrindo nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno”. Não é isso que todos nós buscamos o tempo inteiro, um lugar para o genuíno?
Lembro, agora, de uma história contada por Thiago de Mello sobre esses versos de sua autoria: “Na fogueira do que faço / por amor me queimo inteiro”. 
Ao lançar um livro, no Rio de Janeiro, Thiago ouviu as mesmas palavras, recitadas por alguém a sua volta. Procurou a voz até desistir. Ouviu mais duas, três vezes, até que se deparou com um homem de meia idade, acompanhado da mulher, esbanjando um brilho insuperável no olhar. Comovido, ele recitou o texto novamente e disse a Thiago: “você não sabe o bem que esses teus versos me fizeram”. A alegria de uma vida inteira estava ali, exposta, por causa de alguns poucos versos.
Os poetas são assim: generosos. Se bem lidos, podem mudar toda uma existência. 
Aliás, reza a lenda que o Gullar virou poeta ao ler uma tradução de Rainer Maria Rilke feita pelo Manuel Bandeira. O texto de Rilke descrevia a beleza de uma escultura existente em Mileto, no século V a.C., que o poeta avistou em uma visita ao Museu do Louvre, o Torso Arcaico de Apolo. Para Rilke, o torso não era um mero objeto de mármore, mas uma obra viva, pois nada ali desviava o olhar do espectador, tamanha a perfeição da escultura. “Força”, disse o poeta, “é mudares de vida”. Eis o sentido da poesia visto por Gullar: o poema dá corpo aquilo que a beleza aviva. 
Para isso, entretanto, é indispensável a figura do leitor. Ninguém descobre a beleza do cume de uma montanha se não for até lá. Ninguém entende o prazer do poema se não o ler. A antologia do Gullar pode ser um bom começo. Nela, o poeta reuniu os versos que mais o encantaram ao longo da vida, em poemas que oferecem bons momentos de prazer estético. Ele cita, inclusive, o célebre verso de Keats: a thing of beauty is a joy forever. Uma coisa bela é uma alegria eterna. Eis o prazer da poesia, disse Ferreira. E não é isso mesmo?
Ler um bom poema, pelas mãos dos poetas certos, pode ser tão prazeroso quanto contemplar um pôr do sol na pedra da Gávea, um luau numa praia da Bahia, degustar um bom vinho e coisas do gênero. Esse prazer, entretanto, não se dá meramente por sentimentalismos, mas pelo poder verbal dos poetas, que trazem, para os nossos olhos, imagens que nenhum cinema seria capaz de fazer. Todas elas estão ali, nos livros, para nos moldar e definir. Basta querer. 
E não precisa ter preguiça ou receio. Neste mundo, como diria Borges, a beleza é comum.

Texto produzido em: 20/04/2017