Bem razão tinha o jornalista Augusto Donadel ao dizer que elogiar Jean-Paul Sartre suscita indignação tanto de certos direitistas quanto da maioria dos esquerdistas. Daí levá-los até desenhar nos lábios a sua repulsa ao autor de “O Existencialismo é um Humanismo”. É evidente que os esquerdistas extremados naturalmente deviam odiá-lo, pois Sartre rompeu com o Partido Comunista, em 1954, em face das ações criminosas que o PC cometeu na Hungria. Na verdade, o notável filósofo existencialista, por ter ingressado no PC, em 1951 e só lá ficando até 1954, nos leva a entender que não aguentou nem três anos a fraude dos que fingem resolver a questão social implantando ditaduras crudelíssimas.
Não deveria ser o caso, porém, dos direitistas, pois Sartre, fiel à sua linha de conduta, admitiu o indignado brado de Benny Lévy, paradoxalmente seu secretário particular, sem dúvida um interlocutor respeitoso, porém extremamente crítico, ativo, inquieto e corajoso, que não titubeou em dizer que o intelectual independente “não se põe de quatro para aceitar a nojeira do Partido Comunista”. Tendo ainda concordado tranquilamente e plenamente com Benny Lévy quando ele criticou a conduta de Romain Rolland ao não ver a carnificina perpetrada pelos comunistas, em 1930, na URSS. E Sartre foi além ao confessar corajosamente ter errado ao elogiar os comunistas quando passou alguns dias, na União Soviética, pois não viu o horror encoberto. Por mais inverossímil que pareça, a última pessoa a entrevistar Sartre foi o seu secretário particular Benny Lévy, que jamais deixou de desenvolver as suas destemidas críticas verberando, fustigando, censurando energicamente um esquerdismo anti-humano.  
Seria bom registrar que, espantosamente, alguns segmentos da direita continuam abominando Sartre, quando, sob alguns aspectos, podiam apenas dele discordar com uma certa veemência. Por outro lado, certas figurinhas de opereta resumem, limitam o existencialismo à figura de Sartre. Esquecidos ou por ignorarem que um notável pensador dinamarquês, lá pelos anos oitenta do século dezenove, já esboçava o existencialismo cristão. Sim, Kierkegaard nos convocava, nas entrelinhas dos seus textos, para vivermos por inteiro, no âmbito da Fé. Frisando que, para tanto, seria imperioso se entregar “a totalidade de si mesmo a Deus”. Sendo bom registrar também que há direitistas, que chegam ao requinte de intencionalmente ignorar ou deformar os pontos de vista de Gabriel Marcel, o admirável pensador existencialista que, em 1929, converte-se ao catolicismo e daí em diante passa a defender ardorosamente a axiologia sob o ângulo cristão. Daí o radical direitista Joaquim Metralha, no meado dos anos noventa do século passado, ter chamado o existencialismo cristão de existencialismo cretino.
Tais absurdos mostram como o sectarismo tira do homem a sua capacidade de pensar e de melhorar a convivência com os seus semelhantes.