É incrível como alguns livros conseguem mudar a vida de inúmeras pessoas a nossa volta, desde clássicos absolutos como “Crime e Castigo” ou “Cem anos de solidão” até best-sellers mais recentes, como as séries de Dan Brown ou de J. K. Rowling. Mas nenhum deles parece despertar uma reação tão visceral, talvez, do que o famoso Rayuela, ou o “Jogo da Amarelinha”, de Júlio Cortázar.
Basta percorrer as centenas de páginas desse belo caleidoscópio literário e existencial para entender porque esse argentino (que teria completado 105 anos em agosto, se vivo fosse) conseguiu incutir em tanta gente a paixão pela leitura e pela metafísica, trazendo uma miríade de histórias e personagens literalmente fantásticos, que até hoje reverberam na memória afetiva de tantas gerações.
Pelo menos aquelas que foram diretamente afetadas pelo famoso boom da literatura latino-americana, ocorrido a partir da segunda metade do século XX, já que, a exemplo de Borges (e muitos outros escritores hispânicos), Cortázar demorou a ser bem assimilado no Brasil – com o agravante de sua figura pública ter sido enquadrada dentro de um certo ideário de juventude e militância que, definitivamente, limitou sua apreensão por boa parte do público. Não são poucos, por exemplo, que enxergaram Cortázar como um mero experimentador, uma imagem reducionista que, felizmente, vem sendo modificada pelo crescimento das redes sociais e pela recente reedição de sua obra pela Cia. das Letras, que pode libertar o escritor dos círculos universitários para, enfim, conduzi-lo a um número maior de leitores. 
São eles, aliás, que ficam bestificados ao conhecerem uma Paris onde a Torre Eiffel importa menos do que os encontros fortuitos entre Horácio Oliveira e a famosa Maga, bem como as reuniões do célebre “Clube de Serpente”, cuja existência dificilmente deixa incólume quem enfrenta o jogo de linguagem cortazariano. É sintomática, nesse sentido, a revelação feita pelo autor ao repórter uruguaio Ernesto Gonzáles Bermejo, no volume “Conversas com Cortázar”, onde afirma que “O Jogo da Amarelinha” foi um grande exorcismo das inúmeras vivências que acumulara até então. “Se não tivesse escrito esse livro, teria me jogado do Sena”, confidenciou ele, fazendo eco, talvez, a um companheiro de geração, o poeta brasileiro Ferreira Gullar, que também escreveu seu “Poema Sujo” em um jorro de vida sem precedentes em nossa literatura, por achar que este seria seu último ato na terra.
O que mais impressiona, no entanto, é que essa mesma verve presente em Rayuela emerge também nos contos do escritor argentino, eliminando uma possível necessidade de situações-limites para produzir literatura. Foi por meio desses volumes de contos, aliás, que Cortázar expandiu sua arte, demonstrando que era possível desenhar o indizível como quem brinca de amarelinha e apresentá-lo ao leitor com vivacidade e originalidade, sem os hermetismos comuns à literatura de seu tempo. 
Portando-se como um escorpião encalacrado, como era chamado pelo amigo e crítico brasileiro Davi Arrigucci Júnior, Cortázar talvez seja um dos poucos escritores que souberam administrar seu doce veneno, fazendo-nos perceber o fantástico em nossas vidas com mais naturalidade, enquanto ele se diverte nos observando à distância, dando uma piscadela de canto de olho, ao som do trompete de Chet Baker e do piano de Thelonious Monk.

Texto produzido em: 28/08/2019