Quem lê “Campos dos Goytacazes” grafado assim, com “y”, já se acostumou com o nome da cidade sendo escrito dessa maneira, não é mesmo? Poucos devem se perguntar como esse “y”, conhecido também como o “i grego”, foi se misturar a um nome tupi – logo aqui, na planície, fazendo uma junção que não tem sentido sequer histórico, quanto mais ortográfico... 
Algo parecido ocorreu, há pouco tempo, com o Atlético Paranaense, que passou a ser referido como “Club Athletico Paranaense”, com esse “th” tão arcaico e tão em desacordo com a ortografia que, confesso, julguei ser uma mera eventualidade. Mas eis que não! A mudança realizada pelo time de futebol não se deu apenas para ele se distinguir do outro Atlético, o Mineiro. Ocorreu, sobretudo, para “homenagear o passado” da agremiação, conforme lembrou o presidente do time ao apresentar a “nova” identidade visual do “Athletico”. 
Bem, já que é para homenagear o passado, fui atrás do “A imprensa e o caos na ortografia”, obra do jornalista Marcos de Castro, que chamava a atenção para o estado primitivo em que vinha se encontrando a língua portuguesa no Brasil desde o meado dos anos 1970, quando a imprensa decidiu, por ignorância ou inépcia, desrespeitar o Formulário Ortográfico vigente no Brasil desde 1943, que é a base legal da nossa ortografia, como lembrava Marcos – cuja paixão pela língua era, de fato, gigantesca.
Ele, que foi repórter do Jornal do Brasil e da TV Globo, era formado em letras clássicas e decidiu escrever o livro como objeto de resistência, frente ao crescimento dos meios de comunicação em nosso país. 
A ideia era combater esse estágio perene de bagunça ortográfica, que entope nossos olhos e ouvidos há décadas com as grafias mais esdrúxulas, nomes completamente nonsenses, entre outros problemas normalizados pelo establishment. “Mas a verdade é que nenhuma língua culta se estabeleceu como tal sem respeitar a ortografia. Só o Brasil se mantém nesse estado tribal”, dizia Marcos.
No livro, ele mostra como os meios de comunicação no Brasil respeitavam inteiramente o Formulário Ortográfico, da mesma forma que Portugal, onde o idioma se consolidou ainda mais depois de combater a “balbúrdia ortográfica” do início do século XX. Isso significa que, nos registros formais do idioma, todos os substantivos são grafados de acordo com a ortografia vigente, impedindo, por exemplo, que alguém escreva “Paraty” em vez de “Parati” ou registre “Mattheus” em vez de “Mateus” na certidão de nascimento, como é o recomendado. 
Afinal de contas, o Formulário Ortográfico, como lembra o jornalista, fora redigido por especialistas durante décadas justamente para evitar aberrações como essas, mantendo a língua dentro de um padrão formal que não provoca dúvidas em nenhum de seus falantes. 
Situação bem diferente do Brasil, onde basta alguém redigir qualquer texto que contenha nomes próprios para logo se perguntar a maneira como deve escrevê-los. É essa a “balbúrdia ortográfica” a que Marcos se referia e na qual os exemplos de Campos e do Atlético se encaixam tão bem.
Pena que o jornalista faleceu há alguns anos e não pôde ver mais esse exemplo para enriquecer o seu belo livro. Isso ajudaria a deixá-lo mais volumoso, o que talvez chamasse a atenção de um número maior de pessoas. 
Ou, quem sabe, ajudasse certos presidentes de times de futebol a fazer alguns gols fora de campo, não é mesmo?

Texto produzido em: 25/07/2019