Eu me sinto, embora figurinha da classe média, com muita honra latino-americano. Não nego, porém, que sentimentos atávicos decorrentes da luta de Portugal contra a Espanha para se manter independente e que o fez se lançar aos braços da Inglaterra, bem como os conflitos dos brasileiros contra, sobretudo, os nossos vizinhos argentinos e paraguaios (vergonhosamente, às vezes, para defender os interesses da Inglaterra preocupada com o Paraguai dar os primeiros passos no caminho da industrialização), me levaram quando criança a olhar desconfiado para os nossos irmãos tão iberos como a gente. 
Outro cacoete, outra mania dos brasileiros da classe média e alta é olhar, também, com ar de superioridade os nossos irmãos afrodescendentes. Isso decorre, sobretudo, das forças atávicas resultantes da brutal separação entre os que viviam nas senzalas e os que fruíam todas as benesses da Casa Grande e a trupe dos seus puxa-sacos. Mais grave tem sido o olhar de desconfiança com relação aos próprios brasilíndios, donos, afinal, da Terra que deles abocanhamos cruelmente. Lembro-me que, quando criança, uma empregadinha dos meus pais, contou-me a história de uma babá índia, por ser antropófaga, ter matado um bebê branco aos seus cuidados para saborear as suas carnes macias. Curioso, é que a empregadinha, que me contou a história inverossímil, tinha acentuadamente os traços étnicos dos habitantes do Pindorama antes da colonização europeia. 
Parece-me que esse distanciamento dos nossos vizinhos e de nós mesmos, pois somos essencialmente iberos, mulatos, mamelucos e cafuzos, é um dos componentes do processo de nossa trágica aculturação. Aculturação, que está tomando grandes e preocupantes proporções. Daí, por exemplo, não estar indo à frente como devia o patriótico movimento de Folkcomunicação, que poderia se tornar de fato forte resistência cultural, na sociedade globalizada que, apesar de alguns dos seus aspectos positivos, vem desfigurando criminosamente grupos sociais, comunidades e sociedades nacionais. É o momento das cabeças pensantes do país se empenharem no fortalecimento da Folkcomunicação. Ainda está em tempo de impedir que os brasileiros deixem de ser brasileiros, perdendo a sua alma.    

Texto: 20/02/2016