“A menininha pedindo aos pais para lhe comprar o ‘sustincau’ e o escritor Otto Lara Resende a observando atentamente”. – Carlos Duarte a registrar numa reportagem episódio sem grande interesse jornalístico para os insensíveis de carteirinha.

 

  

Vou de plano avisar os navegantes, que escreverei com letras maiúsculas Moreninho Maroto e Sustincau, porque, para usar um neologismo de Vinicius de Moraes, foram as melhores chuparagens, que saboreei, nas tardes quentes dos Anos Dourados da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Agora entrando no assunto mesmo, vou declarar sem medo que o Brasil era bem melhor, pelo menos na Cidade Maravilhosa dominada pelo sorvete Sustincau, preferência dos boêmios que, na noite carioca, consumiam as mais variadas bebidas alcoólicas, mas que de dia posavam de abstêmios. Não sei se posso dizer a mesma coisa da minha Campos dos Goytacazes, pois era informado por conterrâneos, que comigo se encontravam, no Rio de Janeiro, que as nossas lindas moçoilas já vinham se afastando dos desfiles elegantes para pescar marido, que ocorriam naturalmente todos os sábados e domingos, na Praça São Salvador, logradouro que hoje é o fétido abrigo de mendigos atirados nas sarjetas. 
Na verdade, nos anos em que Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek estiveram à frente do nosso país, a Cidade Maravilhosa abusou do direito de ser maravilhosa. A alegria, a descontração e a beleza palpitavam dos subúrbios à Zona Sul e ao Centro do Rio de Janeiro. Como curti esse período, vendo as mocinhas, ora se banhando com maiô de duas peças, nas praias, ora iluminando coquetemente mais ainda as tardes cariocas a fazerem biquinhos, quando se deleitavam com Moreninhos Marotos e Sustincaus. O Moreninho Maroto não passava do sorvete “Kibon”, alcunha que o meu grupinho de pândegos nele cravou por ter a calidez cor trigueira por fora e ser por dentro fresco, já que não tão gelado... No que diz respeito ao Sustincau, híbrido de “Toddy” com picolé, pode-se dizer que não foi batizado com nenhum outro nome decorrente do contagiante espírito moleque que predominava num Rio de Janeiro de sonho. Ah! Como éramos felizes e não sabíamos. A alegria dominava os corações, indo dos cariocas natos aos brasileiros de outras regiões do país, que faziam do Rio de Janeiro a sua segunda cidade predileta. Sim, a segunda cidade predileta dos movidos por aquelas forças telúricas que dão o perfil das pessoas de caráter. O caso, por exemplo, de Antônio Maria que, pela minha ótica, continua sendo o mais carioca dos pernambucanos apaixonados pela sua Terra e o mais brasileiro dos cariocas.  
Velhos e moços estávamos em sintonia com a época feliz. Os gestos de bondade se multiplicavam. O registrado, na reportagem de Carlos Duarte, foi lembrado também por Vinicius de Moraes e expresso numa inspirada crônica. Relato dramático de episódio envolvendo Otto Lara Resende e um pobre casal acompanhado pela filhinha. Enfim, o festejado escritor deparando-se com miserável família conjugal. O pai com ar doentio, a “mãe ainda moça, desgastada e sem brilho, e filha anêmica, de rostinho chupado”. A menininha querendo aos gritos o sorvete Susticau e o casal sem dinheiro para lhe fazer a vontade. Foi, então, que Otto Lara Resende, resolveu o problema, pagando o sorvete para a menininha e ainda a colocando carinhosamente no colo. Vinicius de Moraes ao tratar do assunto, não fala que o autor de “Bom Dia Para Nascer”, não só colocou a filha do casal no colo, como também praticamente adotou-os, chegando até arranjar emprego para o chefe da família e para sua esposa. Dando-lhes, assim, condições de proporcionar a filha quantos Susticaus ela quisesse, como me relatou Paulinho Mendes Campos. Certamente porque o próprio Otto Lara Resende lhe escondeu esses detalhes, daí simplesmente dizer a Vinicius de Moraes que o pai da menininha “engrolou umas palavras e meteu o pé”. 
Qual o editor de jornal, que hoje publicaria a reportagem de Carlos Duarte, neste nosso mundo do efêmero, dos efeitos especiais e dos lances sensacionais? Quem hoje teria tempo para ler a crônica de Vinicius de Moraes publicada em 1958 tratando do gesto generoso de Otto Lara Resende? Como negar que o Brasil era bem melhor na época em que se tinha a mania de saborear Sustincau pelas ruas cariocas?  Aquela guloseima gelada de muita sustância como, então, se afirmava, no Rio de Janeiro sem balas perdidas. Ah! Quanta saudade do Brasil de Getúlio e Juscelino, o nosso Pindorama a nos dar orgulho de termos nascidos aqui, na Nova Canaã, que maus brasileiros estão destruindo, tornando-a o pobre torrão dos sem elites verdadeiras para traçar o destino do país, dos sem segurança, dos sem emprego, dos sem água.

 

Texto: 20/10/2015