Dizem que palavra tem poder. Isso é quase um ditado popular, aliás. Algumas pessoas creem em ditados; outras, nem tanto. Um cético diria que são recursos frágeis para, numa frase, remediar os percalços da vida. Já crianças adoram ditados, filosofam sobre eles como alemães. Melhor não ser cético, portanto... Mas o que eu queria falar não era isso. Eis o que eu ia dizer: palavras são mais misteriosas do que os elevadores dos prédios deste século.
Vejam vocês: adentrei um edifício novo em Campos, era a minha primeira vez naquele local. Sou da província. Certos modernismos deixam minha alma mais arcaica do que o bigode de Machado de Assis, mais antigo do que os fraques de Pinheiro Machado nas crônicas de Nelson Rodrigues – e o modernismo em questão era este: o segurança barrou minha entrada por causa de um cartão. Eu deveria pegar, com um recepcionista, o objeto que validaria minha entrada nos elevadores, como ocorre nos hospitais. (Adentrar um prédio comum e se achar num hospital já não é boa coisa, mas vá lá, estamos no século XXI). O caso é que, depois de fazer o que eu tinha que fazer, minha saída do prédio também foi barrada. Ela só ocorreria mediante a entrega do bendito cartão. Mas, provinciano que sou, o havia deixado 12 andares acima. E o porteiro, brasileiro cumpridor dos seus ofícios, não me deixou partir. Que eu voltasse no 12º andar e pegasse o cartão, ora bolas.
Também brasileiro e cumpridor dos meus deveres, peguei o elevador com uma paciência beneditina. (Me lembrei dos poemas de Dom Marcos Barbosa). Pelo menos estava fresco. Lá fora, o sol rachava catedrais, como dizia o Nelson. Ao voltar, não me contive e ri daquela burocracia feia e tosca, como um poema concretista. Uma senhora, que estava no elevador, se assustou com o riso de Rabelais que eu deixara escapar. Acalmei-a. Pobre senhora... Revelei o motivo do riso: a burocracia feia e tosca de um cartão tosco e feio. Afinal, a proporção me dava razão: quantos prédios comerciais faziam aquilo?
Eis que ela arranca das entranhas do silêncio o termo ríspido:
– É realmente abjeto.
Quanta elegância em usar a palavra “abjeto” no século XXI, em que a arte do insulto desceu alguns elevadores na dignidade idiomática! E esta senhora, com cara de professora antiga, foi além. Ela contou-me uma história proustiana ao sair do elevador:
– Esta cidade vive de pose e muitas pessoas são assim também. Olha aquela perua chegando ali, por exemplo.
(Vinha uma perua, como se vê).
– Mora num apartamento chique, anda no carro do ano, vive repleta de joias, mas não para de me pedir dinheiro emprestado. Me deve mais de tantos reais! E ainda nem pergunta como eu estou, como vão as coisas... passa por mim e diz apenas “olá”. Quer ver?
“Olá”, a perua disse para ela – e escafedeu-se.
– Cínica, resmungou a pobre senhora. Brasileira cumpridora do seu ofício, ela passou o cartão e foi embora num táxi. 
Fiquei triste com a história. A burocracia do prédio acinzentou aquela tarde de melancolia. Havia um lamento de honestidade pairando no ar, como incenso de igreja. Mas eu lembrava era da palavra: abjeto. Claro que a conhecia. Mas uma coisa é saber um vocábulo apreendido; outra é verificá-lo no dicionário, apalpar seu significado, sua etimologia. 
Ia correr para o Aurélio quando me deparei, no celular, com a notícia científica de que o hábito de aprender e lidar com palavras não tão usuais ativa a mesma região do cérebro ligada ao uso de psicoativos. Já que é assim, fico por aqui. Vou me entreter no Aurélio. Sintam-se osculados neste fevereiro quente de rachar catedrais. 

Texto produzido em: 25/01/2017