No dia 10 do mês passado, Thiago Cherem Morelli, médico de Florianópolis, Santa Catarina, publicou um relato comovente no Facebook. Ele descreveu o atendimento a uma senhora que não sabia mais o que fazer para controlar a pressão arterial. Ela já estava usando quatro classes de anti-hipertensivos, jurava não se exceder no sal e queria um encaminhamento ao cardiologista.
Thiago, que sempre se preocupou com o que podia estar por trás das queixas de seus pacientes, perguntou quando foi que ela começou a sentir os sintomas e o que estava vivendo naquele determinado momento. A mulher, então, começou a chorar. O marido tinha morrido. Batia diariamente nela – e ela se sentia culpada por ter ficado feliz com a partida dele. O médico começou a chorar também. “Com aquelas lágrimas, a minha angústia e a dela estavam indo embora”, revelou Thiago.
Pouco tempo depois, a senhora voltou, já com a pressão controlada e sem picos. Não precisou ir ao cardiologista. O “choro solidário” havia sido o melhor tratamento. 
O relato de Thiago recebeu vários compartilhamentos e comentários. Porém, mais do que o sucesso de uma postagem na internet, a história ilustra, de forma cristalina, o desejo de tantos brasileiros em ter uma saúde pública mais humana e, portanto, menos desigual.
Para abordar o assunto, entrevistamos o próprio Thiago, que é graduado em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina, com Residência em Medicina de Família e Comunidade pela Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis. 
Além de falar da história, ele ratificou a importância da atenção básica, um “instrumento importante de transformação da realidade”. Vale a pena conferir.
Mania de Saúde – A história que você contou foi muito tocante. Ela representa, de fato, a humanização da medicina. Como é o retorno dos pacientes (e dos profissionais a sua volta) diante de atendimentos como esse? 
Dr. Thiago Cherem Morelli –
O que me angustia é que esse atendimento humanizado deveria ser a regra e não a exceção. A repercussão do texto talvez seja mais um elemento que mostre como as pessoas estão carentes de cuidado por parte dos profissionais de saúde. O que os pacientes trazem é que muitos profissionais, principalmente médicos, realizam atendimentos sem empatia ou de uma forma muito mecânica. As pessoas querem médicos que tenham boa qualidade técnica sim, mas isso não é suficiente. Elas também querem que esse profissional tenha a mínima capacidade de se colocar no seu lugar, compreender suas angústias, seus medos. A tristeza, por exemplo, é um sintoma extremamente complexo. Mas, muitas vezes, o papel do médico acaba sendo o de apenas fornecer um medicamento, em vez de trabalhar o que está por trás daquela queixa e, assim, oferecer acompanhamento psicológico, bem como orientar atividade física. As pessoas querem que os agentes de saúde se interessem de verdade por suas histórias. Boa parte dos profissionais não consegue entender que o mecanismo biológico da doença pode ser o mesmo para vários pacientes. Mas a sua experiência, a sua vivência diante daquela situação, é única. 
Mania de Saúde – Apesar de o modelo hospitalocêntrico continuar em vigor, hoje há profissionais e instituições defendendo a atenção básica. O próprio MEC passou a exigir isso dos cursos de medicina. Essa atenção pode realmente mudar a saúde? 
Dr. Thiago Cherem Morelli –
Os melhores sistemas de saúde do mundo têm como base a atenção primária, com profissionais qualificados na linha de frente. No Brasil, o médico especialista nessa área é o Médico de Família e Comunidade, que compõe as equipes de saúde da família. Este é, sem dúvida, o melhor modelo não só do ponto de vista gerencial e de otimização de recursos, mas principalmente para o cuidado das pessoas. Uma pesquisa recente da Unicamp relacionou a Estratégia Saúde da Família com a redução de infartos e derrames. Florianópolis, referência em atenção primária no país e no mundo, conseguiu reduzir de forma significativa as internações hospitalares através do fortalecimento de sua rede básica. Esses profissionais são capazes de resolver ali, próximo da casa da pessoa, com vínculo entre equipe, paciente e família, em torno de 90% das demandas. Eu costumo dizer que a atenção primária é um instrumento importante de transformação da realidade. Neste ambiente, fica muito mais claro os diversos fatores que estão relacionados com o adoecimento. 
Mania de Saúde – O que você tem a dizer para aqueles que desconhecem a área? Que conselho você daria para o calouro que sonha mais com os louros da profissão do que com seu poder de ajudar o público?
Dr. Thiago Cherem Morelli
– As pessoas estão buscando profissionais que as vejam como um todo, que possam fornecer um cuidado ao longo da vida e que não limitem seu conhecimento a um órgão ou doença. Estão buscando especialistas em pessoas. É aí que entra a Medicina de Família e Comunidade. Somos especialistas em gente, capazes de fornecer um cuidado diferenciado para os pacientes. Por exemplo, se você tiver um quadro de dor de cabeça, qual especialista deve procurar? Um neurologista para tratar uma enxaqueca? Um otorrino para tratar uma sinusite? Ou um oftalmologista para avaliar sua visão? Neste modelo, o ideal é que você procure seu Centro de Saúde e seja avaliado por seu médico de família ou enfermeira de referência, que resolverão a maior parte dos problemas ali mesmo. Ou ainda, se for necessário, podem solicitar algum exame ou encaminhar para outros profissionais. Mas esse primeiro contato é muito importante e deve ser feito pela sua equipe de saúde da família.
Mania de Saúde – Gestos como o seu dependem apenas de atitude pessoal ou a formação pode influenciar os alunos a tê-los?
Dr. Thiago Cherem Morelli –
O currículo das faculdades de medicina é central no tipo de médico que está sendo formado. Fiz meu Trabalho de Conclusão de Curso na área de educação médica, sobre empatia dos estudantes de medicina e a conclusão foi justamente que esses estudantes chegam na faculdade mais empáticos e com maior desejo de ajudar as pessoas, mas o curso médico vai os deixando mais “duros” e menos “humanos” ao longo do tempo. E isso está de acordo com outros estudos internacionais. Precisamos avançar muito no ensino de habilidades de comunicação dentro das faculdades de medicina. Mas não dá para ignorar também a influência do mercado na educação médica, que acaba direcionando essa formação para uma medicina menos humana e menos voltada para as necessidades das pessoas.

Texto produzido em: 20/03/2017