Até pouco tempo, debater a identidade nacional era quase um dever cívico para muitos brasileiros. Que país é este, não é mesmo? Lembro-me de que, na faculdade, não eram poucos os que iam à biblioteca atrás de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, na tentativa de captar as raízes do Brasil.  
Mas vejam só, que coisa. Desde as manifestações de 2013, quando o Brasil entrou em um colapso político que parece durar até hoje, a discussão sobre a alma brasileira passou a ser algo secundário. Há quem considere, até, um assunto ultrapassado, sem sentido, incapaz de solucionar nossos problemas cotidianos – a corrupção sistêmica, por exemplo. 
Por outro lado, o mercado não para de lançar e relançar obras sobre o Brasil. O próprio Sérgio Buarque foi reeditado em edição luxuosa. Raymundo Faoro, e seu antológico “Os donos do poder”, também. Isso para não falar do mergulho em episódios históricos. Aliás, os próprios livros de História do Brasil não param de surgir nas prateleiras.
Brasil: um paradoxo ambulante (Paulo Mendes Campos).
Só sei que as cenas deploráveis da crise de segurança pública no Espírito Santo, exibidas fartamente pelo país no mês passado, calaram qualquer discussão acadêmica ou conversa de botequim que tentassem melhorar o país olhando para trás. O presente era assustador demais: populares de todos os tipos saqueando lojas, como se estivessem em zonas de guerra. Triste. Milhares de brasileiros se perguntaram como um país desse pode dar certo. 
Brasil: condenado à esperança (Millôr Fernandes). 
Mas, como não há nada ruim que não possa piorar, boa parte da população completou o rol de maldades. Quando a crise deu sinais de que poderia se irradiar para outros estados, as redes sociais foram tomadas por uma quantidade abissal de mentiras e falsos comunicados que só alastraram ainda mais o pânico. Em Campos, por exemplo, os desmentidos oficiais de uma possível greve de nada valeram. Muita gente preferiu dar ouvidos a notícias escancaradamente mentirosas. O mundo da pós-verdade tem sede de ser enganado.
Esse episódio me fez lembrar uma história contada por Gabriel Garcia Marquez, que serve de lição nesses momentos sombrios que estamos vivendo. 
Uma senhora tomava o café da manhã com os filhos, enquanto apresentava uma forte expressão de medo no rosto. “Amanheci com o pensamento de que alguma coisa muito grave vai acontecer neste povoado”, respondeu ela, quando questionada sobre o motivo de tanta apreensão. Os meninos riram da pobre mãe.
Até que um deles foi jogar bilhar e errou uma simples tacada. “O que aconteceu, se era uma jogada tão fácil?”, perguntaram. “É verdade, mas fiquei preocupado com o que minha mãe me disse esta manhã”, respondeu o garoto. Mais risadas surgiram, principalmente do vencedor do jogo, que foi embora para casa e contou à mãe dele sobre o ocorrido. 
Esta, por coincidência, saiu de casa para comprar carne e não se contentou com o seu meio quilo habitual. “Me vê logo um quilo, porque estão dizendo por aí que algo de grave vai acontecer, é melhor estar preparada”. A notícia foi se espalhando e, em pouco tempo, o açougueiro vendeu todo o seu estoque. 
De repente, o povoado inteiro esperava que alguma desgraça fosse acontecer. Na vila, reinava o calor de sempre. Alguém disse: “Vocês estão percebendo o calor que está fazendo?”. “Mas aqui sempre fez muito calor”, respondeu um. “Mesmo assim”, alertou outro, “nunca fez tanto calor a esta hora”. Sem mais nem menos, todos criaram coragem e fugiram do possível caos que se instalaria. Casas foram incendiadas. O pânico tomou o povo. E, no meio dele, estava a senhora que teve o presságio: “Eu falei que alguma coisa muito grave ia acontecer e disseram que eu estava louca”.
Resumo: uma pequena e pacata vila fora destruída por uma falsa impressão de pânico, que gerou um boato, maior do que a verdade. Pena que tão poucos leram histórias como essas, não é mesmo?
Saudades desse Gabriel...

Texto produzido em: 18/02/2017