A dor de cabeça nas crianças pode surgir desde muito cedo, mas nem sempre a criança consegue se expressar e verbalizar o que está sentindo. No entanto, os pais podem suspeitar que a criança não está bem quando nota que ela deixa de fazer atividades que gosta muito, como brincar com os amigos ou jogar futebol, por exemplo. Esses são alguns sinais de que algo está errado. 
Nossa reportagem foi até a Clínica São Judas Tadeu e conversou com a médica neuropediatra Dra. Cíntia dos Santos Fernandes, que deu mais detalhes sobre o tema. “A cefaleia é uma queixa muito frequente em consultórios de pediatras e neuropediatras. Primeiramente, é preciso categorizar essa dor entre cefaleia primária ou secundária. Na primária, a própria dor de cabeça é a doença. Já a secundária aponta que outra coisa está gerando aquela dor, ou seja, ela é consequência de outro problema, como um trauma craniano, uma infecção ou até mesmo coisas mais graves, como um sangramento dentro da cabeça. A temporalidade é algo importante para classificar essa dor, já que a principal ocorrência de cefaleia na infância são as primárias (enxaqueca, cefaleia tensional). E, se crianças muito pequenas muitas vezes não sabem dizer que estão com dor, como os pais podem saber? Existem alguns sinais, como a criança procurar um cantinho mais escuro para ficar, já que um dos sintomas da enxaqueca é a piora da dor diante de estímulos luminosos. Ou então os sons a incomodam e ela vai pedir para ficar num quarto com pouco barulho. Outras vezes ela dorme, pede para se ausentar da escola, sente enjoos. Algumas crianças têm sinais e sintomas neurológicos que antecedem os quadros de cefaleia (entre 5 a 20 minutos), o que chamamos de ‘aura’. Na aura visual, a criança pode relatar que está vendo alguns pontinhos coloridos. Outras ‘auras’ são o déficit de força, diminuição de sensibilidade, problema de fala e tonteira. Não ocorre em todos os pacientes, mas pode ajudar a caracterizar o quadro de enxaqueca. Nas crianças pequenas existem ainda o que chamamos de síndromes periódicas da infância, que, posteriormente, se manifestam com vômitos cíclicos, vertigens e torcicolos paroxísticos”. 
Dra. Cíntia fala ainda sobre os tipos de cefaleias primárias mais frequentes em crianças. “As mais comuns na infância são a enxaqueca e a cefaleia tensional. A enxaqueca pode ser desencadeada por uma série de fatores como atividade física, alimentos com muita cafeína ou muito gordurosos e embutidos, privação de sono, jejum muito prolongado, além do fator genético. Ela pode ter intensidade de moderada a forte, dura em torno de 3 dias e costuma ser unilateral (embora na criança pequena possa ocorrer dos dois lados). A cefaleia tensional, no geral, pode ser deflagrada pelos quadros de ansiedade e também pelo stress”. 
A neuropediatra faz, também, um alerta sobre os riscos da automedicação. “É preciso investigar porque a criança está tendo aquela dor e, se ela for sendo medicada por conta dos pais, pode-se estar postergando um diagnóstico de uma cefaleia secundária. A automedicação é preocupante porque pode ocasionar ainda a cefaleia por abuso de medicação, criando aí um círculo vicioso. Por isso o indicado é que se procure um neurologista infantil ou até mesmo o pediatra, que pode fazer as orientações iniciais e, se o quadro for persistente, encaminhar para o especialista”. 
Dra. Cíntia finaliza explicando alguns sinais de alerta para os pais com relação às dores de cabeça secundárias. “A criança que acorda de madrugada por causa da dor, mudanças no padrão da dor (como intensidade e frequência), dores quase diárias ou súbitas. Seria bom que os pais pudessem fazer um diário dessa dor, anotando coisas como o dia e a hora em que a dor ocorreu, se a criança teve fotofobia, fonofobia ou enjoo, a intensidade, se precisou medicar, a localização da dor, o que a criança estava fazendo quando a dor começou, o tempo em que a dor durou e se melhorou com medicação. Isso vai ajudar o médico a caracterizar aquela cefaleia”, finaliza.

Texto produzido em 18/06/2019