Este artigo não pretende apontar os padrões neuróticos, nem as obsessões femininas em relação ao peso de seus corpos nas balanças ou nas idealizações dos editoriais de moda. Mas afirmar que ecológica democrática e esteticamente o futuro pertence as bicicletas, definindo um novo padrão de mobilidade urbana.

É impraticável o plano da indústria automobilística e dos produtores do petróleo para que cada indivíduo se torne dependente de um veículo com motor a explosão. Assistimos a um fenômeno global de cidades se tornando decadentes pelo excesso de máquinas movidas a petróleo. Além de ocuparem muito espaço, estes veículos poluem e pioram a vida das pessoas de modo geral.

Também é inviável apoiar o crescimento de uma cidade voltada apenas para carros, motos, ônibus e caminhões. O número de veículos cresce exponencialmente mais rápido que a possibilidade dos governos proverem infraestrutura que dê suporte a esta demanda. As maiores e mais importantes cidades do Brasil têm trechos que são ao mesmo tempo rodovias e áreas urbanas. Temos hospitais, escolas e casas nas margens da BR, e isso é péssimo para a população.

As ruas se tornaram sinônimo de perigo, onde devemos sempre esperar pelo pior, pois elas pertencem aos veículos e não aos pedestres. Campos já teve um porto no rio Paraíba do Sul e não tem mais. Já teve um canal intermunicipal navegável e não tem mais. Já teve ferrovia e não tem mais. Já teve bonde elétrico e não tem mais. Os projetos do corredor logístico e de um anel viário estão travados pela burocracia burra e política inoperante.

Então qual é a alternativa? As magrelas, apelido carinhoso dos amantes das bicicletas. Saudável e não poluente, baratas e acessíveis a todos, promovem uma verdadeira partilha das vias públicas. Todas as tentativas de rearranjo da mobilidade urbana um prol das bikes estão dando certo.

Não há como não se encantar com as bicicletas públicas de Paris, que, devolvidas em qualquer um dos 300 bicicletários da cidade, em menos de trinta minutos, tem custo zero ao usuário. São 371 km de ciclovias na cidade e o slogan é simples: “de bicicleta a cidade é mais bonita”. Na orla do Rio de Janeiro, um banco privado teve a mesma iniciativa, e é possível aos seus  correntistas pedalarem comunitariamente desfrutando a beleza carioca.

A cidade maravilhosa já tem a segunda maior rede cicloviária da américa do sul, com mais de 235 km de ciclovias, perdendo apenas para Bogotá. Na maior cidade da União Européia, nem mesmo o prefeito tem direito a carro ofi cial. Boris Johnson vai diariamente ao trabalho pedalando. Em Manhattan, o ex-prefeito Michael Bloomberg deixou um verdadeiro legado para a Big Apple: as ciclofaixas deixaram o ar mais limpo, a cidade mais silenciosa, as pessoas menos ansiosas e o trânsito dos carros até mais veloz. Já em Santiago presenciei uma manifestação de milhares de ciclistas pedindo novas ciclovias na capital Chilena. Apitavam e gritavam: “Somos caretas, queremos bicicletas”. A cidade, que já pegou carona no cicloturismo, tem um projeto ambicioso: pretende atingir 690km de ciclofaixas nas proximas duas décadas.

Por aqui, o Ministério das Cidades mantém um projeto chamado “Bicicleta Brasil: Avanços e Desafios”, para incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte em todo o país

Em São Paulo, há até ciclistas que protestam pelados pela avenida Paulista, pedindo mais ciclovias. Segundo estatísticas, 1% dos deslocamentos da cidade da garoa são feitos de bike, aproximadamente 700 mil viagens diárias. Por lá, os sortudos são os que preferem pedalar a ficar estressado dentro dos veículos em infinitos congestionamentos.

Reza a lenda que há ciclovias e ciclofaixas em Campos. Mas onde está divulgado o mapa cicloviário? Onde estacioná-las no centro, ou no mercado municipal? Não seria melhor e mais viável fazê-las em ruas com menos movimento de veículos, ao invés de adaptá-las no meio das principais artérias rodoviárias da cidade? Por aqui, muita coisa ainda precisa ser feita, principalmente na consciência das pessoas.

Para as cidades sobreviverem a loucura do “progresso”, e nós vivermos com mais qualidade de vida, todos precisaremos de uma magrela por perto.