Depois que Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling escreveram uma biografia sobre o Brasil, não causa mais tanta surpresa um livro que trate de temas históricos (e amplos) como se fossem um personagem de carne e osso. A exceção parece ser o jornalista Lira Neto, com  “Uma história do Samba – As origens”. 
A obra, que despontou no mercado editorial este ano, será dividida em uma trilogia, a exemplo da aclamada biografia sobre Getúlio Vargas, escrita pelo autor há poucos anos. Mas o primeiro volume já mostrou a que veio: bastou chegar à praça para logo despertar o interesse dos apaixonados pelo estilo musical que, em todo o mundo, é reconhecido como um dos símbolos da cultura brasileira. 
Se o samba descrito por Lira Neto fosse de carne e osso, sem dúvidas estaria vestido a la Noel Rosa, convidando a todos para uma boa roda ou uma simples conversa de botequim, como o próprio autor tem feito ao lançar a obra em algumas capitais. Nesta entrevista exclusiva ao Mania de Saúde, Lira falou sobre o novo trabalho e discorreu como o samba espelha toda a nossa complexidade social, a começar pelo profundo debate que a história do samba engendra e provoca no Brasil. Imperdível, como sempre.
Mania de Saúde − Seu livro sobre Getúlio não se restringe ao personagem. Você, de certa forma, contou a história do Brasil moderno, o que ampliou o valor da obra. A trilogia sobre o samba seguirá essa linha? Que tipo de público o livro pode atingir?
Lira Neto
− Ao escrever a biografia de alguém, estamos também, necessariamente, “biografando” toda uma época, aquela na qual o personagem está inserido. Afinal de contas, biografar um indivíduo significa buscar entender de que modo as esferas da vida pública e da vida privada se impactam e se autoinfluenciam. No caso de um livro sobre um gênero musical, não poderia ser diferente. É preciso entender todo o contexto social, político e econômico no qual o samba surgiu e se consolidou, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Por isso, escrever sobre ele significa escrever também sobre um momento histórico específico, marcado por grandes conflitos raciais e pelas reformas urbanas higienistas que desenharam a paisagem carioca e deram origem à ocupação dos subúrbios e do morro, formando as primeiras favelas do país.
Mania de Saúde − O primeiro volume traz as origens do estilo. Os leitores têm se surpreendido com as histórias que você contou? Como serão os outros volumes?
Lira Neto
− A reação do público e da crítica tem sido a melhor possível. Acho que uma das especificidades mais comentadas a respeito da obra é o fato dela procurar mostrar que o samba, assim como toda manifestação da cultura popular, é uma obra de construção coletiva. Assim, não faz o menor sentido ficar discutindo quem foi o autor do primeiro samba, onde o ritmo surgiu, quem inventou o surdo, quem criou o tamborim, por exemplo. O samba é uma construção plural, fruto de ancestralidades africanas muito bem definidas, postas em contato com outras influências rurais e urbanas durante o seu percurso de formação no Brasil. Isso não se deu sem conflito, sem tentativas de apropriação e desapropriação, violências físicas e simbólicas. É o que o livro tenta mostrar.
Mania de Saúde − Beth Carvalho fez uma análise amarga sobre o samba em recente entrevista à Folha de S. Paulo. Ela aponta um desinteresse geral pelo tema, mas seu livro chega justamente agora e sendo bem saudado pelo público. Você acha que ele pode suprir essa lacuna de desinteresse sugerida pela Beth?
Lira Neto −
Não li a entrevista da grande Beth Carvalho, de quem sou fã entusiasmado. Mas acho que talvez ela tenha querido se referir ao fato de, atualmente, o samba não deter mais a hegemonia do mercado musical no país. Isso é uma constatação óbvia, mas não é nenhuma novidade. Ao longo de seu processo de formação e consolidação como o grande ritmo nacional, o samba viveu momentos sucessivos e alternados de glória e refluxo, proeminência e maré baixa. O próprio samba não ficou indiferente às engrenagens e contingências do mercado. Soube negociar espaços, transformar-se, ressignificar-se, absorver influências, inclusive externas, sempre de maneira antropofágica, crítica, criativa.   
Mania de Saúde − O samba ganhou um bocado de discussão no Carnaval este ano, sobretudo nas redes sociais, com as polêmicas das marchinhas e apropriação cultural. Como você analisa esse momento onde tantos opinam sobre tudo, muitas vezes sem o menor embasamento?
Lira Neto −
De fato, vivemos um instante no qual, por causa das novas tecnologias, todos têm a capacidade de gerar informações e emitir opiniões em escala e proporção até então impensadas. Isso, por um lado, é maravilhoso, pois rompeu o controle e o monopólio da informação e da opinião pública. Por outro lado, todos querem emitir juízos numa velocidade alucinada, sem a necessária reflexão prévia, elevando a estridência do senso-comum à enésima potência. Além disso, o binarismo da luta política parece ter contaminado todo e qualquer debate no país. Quando começamos a pensar e a tomar posições fixas em termos de antagonismos fáceis, a conversa complica. O diálogo, dessa forma, não produz deslocamentos, não busca convencer o outro pelo melhor argumento, mas antes desqualificar o interlocutor, xingá-lo, rotulá-lo, encaixotá-lo, carimbá-lo.
Mania de Saúde − O samba continua vivo?
Lira Neto −
Como diria o grande mestre Nelson Sargento, o samba agoniza, mas não morre. E, obviamente, nesse processo, ele se transforma. Não caio na asneira de cobrar “pureza”, “genuinidade” ou “autenticidade” de qualquer manifestação da cultura popular. O mais fascinante na cultura popular é o fato de que ela está em permanente reinvenção e reelaboração. Na década de 1920, quando Pixinguinha e Donga voltaram de Paris, depois de conhecer o jazz e incorporar algumas atitudes e instrumentações da música negra americana, foram acusados pela crítica de estarem se “descaracterizando”. Ao lançar “Carinhoso”, esse clássico da música brasileira, Pixinguinha foi acusado de ter se americanizado, ou melhor, “americanalhado”. Bobagem. Querer que a cultura popular permaneça estática, parada no tempo, dentro de uma redoma é transformá-la em mero folclore. E o folclore nada mais é do que museificação da cultura popular, sua reprodução estilizada e artificial, pois desprovida da potência criadora e de seu caráter natural de insubmissão.

Texto produzido em: 23/04/2017