Plim, prom, plim... Plim, prom, plim... Plim, prom, plim...

 

A grosseira reprodução sonora que tento fazer acima, não se trata de plágio ao início de qualquer seleção de acordes perfeitos de uma sinfonia de Amadeus Mozart, por exemplo, mas do som característico das máquinas que monitoram a esperança de vida dos pacientes que passam, em algum momento de suas existências nesse plano evolutivo, por uma UTI.
A minha experiência, como paciente, nessa área, não é das maiores, mas internado com um quadro hemorrágico, provocado pela obstrução da veia porta que inspirou cuidados e preocupação dos profissionais médicos, na UTI do Hospital da Unimed Campos, pude acompanhar como observador atento, enquanto leigo e paciente/paciente (lembrando o livro “Médicos Pacientes & Pacientes Impacientes”, dos queridos médicos/escritores Walter Siqueira e Sebastião Siqueira), todo o movimento do quadro de profissionais ao longo de 10 angustiantes dias, que se revezavam em turnos com o mesmo perfil de dedicação e em constantes e rápidas decisões com um misto de vigor, sabedoria e liderança do coordenador daquela unidade, aí sim podendo ser comparado ao maestro/regente de uma sinfonia cujos músicos executantes, o corpo de abnegados membros da enfermagem, sem exceção, não desafinava em nenhum momento.
Paralelamente à minha “corrida” pela medalha da alta, fui tomado de intensa emoção quando por ocasião da transfusão de sangue, minha mulher Andréa entrou em contato com pessoas amigas, solicitando a doação de sangue em meu nome, no Hemocentro do Hospital Ferreira Machado. Soube que os noticiários do dia seguinte, juntamente com a direção daquele hospital, comemoravam o recorde desse ano do estoque de sangue, que coincidentemente recebiam, também, em outra campanha muitos doadores para uma criança necessitada, e pude, mais uma vez, avaliar a importância da palavra doação no seu sentido mais abrangente. Soube que se formou uma imensa corrente de solidariedade que levou ao hospital ônibus com pessoas que eu não conheço, ex-funcionários que não vejo há muitos anos e muitos amigos que, mesmo não tendo contato tão próximo se sensibilizaram ao saberem da minha necessidade. Uma dívida humanitária impagável!  
Nesse período que lá estive, pude observar que todos os pacientes, independente das mais variadas patologias que os levaram a ser internados na unidade, clamavam por uma única decisão dos médicos: a alta. Sonhavam pelo desejo de estar ao lado da família, que proporcionasse o “colo” tão necessário ao restabelecimento da paz na alma, o aumento da autoestima e a consequente melhora do quadro clínico, a porta do bem estar para a vida. Afinal, ninguém paga um plano de saúde para usufruir das “delícias” de uma hotelaria hospitalar, por melhor que possa ser, principalmente se estiver incluído nesse roteiro gastronômico uma Unidade de Tratamento Intensivo, mas apenas com o desejo de ter um atendimento digno e eficaz quando necessário. Esse entendimento, incorporado a mim nesse período de total lucidez em que lá passei, na medida que acordava, ainda de madrugada para as minhas orações de agradecimento a Deus (e sempre o incluía em meus pedidos), foi de vital e extraordinária importância para a minha recuperação e para o estímulo de um dos mais importantes aprendizados de vida do qual tive experiência. Sinto que saí muito melhor, enquanto ser humano do que quando lá entrei e passei a ser parte daquele “time de atletas” que sonhava com a medalha de ouro no alto do podium, isto é, a alta e a volta para o meu cafôfo.
A minha gratidão a todos que, direta ou indiretamente, colaboraram para que eu pudesse receber essa medalha.

 

Texto: 20/11/2015