Cara senhora,
Perdoe-me por lhe importunar. Você não me conhece, nem eu a conheço, mas não pude deixar ouvir sua reprimenda, na livraria. 
Seu filho pediu um livro, entusiasmado, mas, ao invés do presente, recebeu uma negativa. “Você tem um monte de livros que ainda não leu!”, foi o seu argumento, proferido de forma bastante rude, por sinal.
Cara senhora, eu lhe peço: não faça isso com seu filho. Crianças são mais sensíveis e inteligentes do que imaginamos. É possível que haja alguma dificuldade de diálogo entre você o garoto – muito simpático, aliás. Se querias evitar uma despesa “desnecessária”, bastava explicitá-la: “Filho, não posso gastar esse dinheiro agora. Quando puder, voltamos aqui”. Uma simples frase e eu tenho certeza que você ganhava o garoto.
Peço desculpas, minha senhora. Sei que a minha opinião não foi pedida. Só estou palpitando... Não sou psicólogo, nem pedagogo, apenas desabafo na condição de leitor que já foi um garoto parecido com o seu. Inclusive, é dessa posição que lhe escrevo. Não ache ruim que seu filho tenha mais livros do que o necessário. Leitores são assim. Algumas obras demoram meses, às vezes anos, para dialogar conosco.  Mas só o fato de o volume estar ali, ao nosso alcance, já abre a possibilidade de uma leitura repentina, que pode ser uma viagem arrebatadora. 
Deixe o moleque com os livros, minha senhora! Tenho certeza de que ele prefere ter alguns volumes ainda não lidos do que brinquedos inutilizados. Observe: daqui a 10 anos, quando o nível de leitura do garoto estiver ainda melhor, você entenderá o que estou dizendo. Brinquedos passam. Livros, não: enraízam.
Mas daqui a dez anos... O que sabemos do amanhã, não é, minha senhora? Nada, é claro; mas, veja: há cerca de 10 anos eu era apenas um estudante interiorano, sem muitos livros, nem maiores ambições na vida. Mas os títulos que comprei foram me formando ao longo do tempo. Agora estou aqui, editando um jornal que talvez você nem leia, mas que faz diferença na vida de muita gente. Não foram as telas distrativas dos celulares que me fizeram virar jornalista. Foi a alquimia das letras. É assim com inúmeras profissões.
Que tal, então, estimular a leitura do garoto? Aproveite o raro desejo dele e também leia um pouco! Há livros para todos os gostos e bolsos... Já falei isso aqui, mas talvez você esteja me lendo só agora. Não faz mal. É comum as leituras ficarem atrasadas. Seu filho sabe bem disso. Não é melhor acumular informação do que quinquilharias? Talvez o garoto se pergunte se a senhora usa todas as bolsas e sapatos que têm no guarda-roupas... Mas, se acalme, não estou sendo inconveniente, veja bem: apenas relativizo. É bom olhar as coisas sobre outras perspectivas. Um segredo: os livros ensinam nisso.
Perdoe-me, senhora, pela intromissão. Não sei nada de sua vida, muito menos conheço o garoto, mas entendo, como ninguém, a impotência que abateu sobre ele no momento em que você tratou o livro como um objetivo inútil. Cuidado para não frutificar essa ideia em alguém tão dedicado a aprender. O ambiente mais fértil para a formação do menino é o reino da literatura. A chave para adentrá-lo são os livros. Por que não abrir essa porta para ele e permitir o que o garoto, por meio dos livros, se torne, enfim, livre para o mundo?

Texto: 05/12/2016