Tenho teorias não filosóficas sobre o tempo, este entrelugar que acredita determinar nossa linha de viver, que acolhe e desacolhe nossa subjetividade e nossos desejos, articula e desarticula encontros e desencontros e quer tornar  - e às vezes torna - o homem seu refém. 

Tenho teorias pragmáticas e alimentada por essas teorias, o tempo e eu temos sérias controvérsias. Uma delas é simples, como simples é a vida. Defendo a proposição de que não é o tempo que abre as comportas do futuro. Ao fazer suas opções, o homem formata e antecipa o advir que tem em sua composição o ‘haver sido’, expressão do filósofo Heidegger e o desenclausuramento da subjetividade, onde são encontradas nossas heranças atávicas, nossos sonhos em suas gêneses. 

Acreditando-se um Zeus transtemporal, o tempo inaugurou uma certa tempocracia, sistema de poder que submete os frágeis e incautos viajantes que por o temerem e por ele incitados, a ele se submetem, vendo-o, com os mesmos olhos aristotélicos, único e infinito. 

Acontece que não há estaticidade no tempo. Em sua intratemporalidade, que explicita uma forma determinante da compreensão de sua cartografia, seu poder se torna vulnerável, segundo o que seus usuários dele fazem: ele pode ser espichado/encolhido; inventado/copiado; criado/repetido; usado/virginado; manipulado/industrializado; adulterado. Há também o tempo da criação, quando o imprevisível, o diferente e o resistente se tatuam em sua pele. Muitas vezes, palco de ilusão, de simulacros, por ele transitam linguagens que nele deixam impregnadas suas sombras, e deixam ecos que trazem a memória de longínquos ontens.

Contra ele podemos praticar o tempocídio, crime que está acima de todo e qualquer tribunal, mas em seu retrucar ele mostra os limites que o homem escolheu para si mesmo, impõe a si mesmo.

Entretanto, há um momento dele, exclusivamente dele. Como se em edital estivesse, e usando das prerrogativas que só a ele são dadas, o Tempo decreta a despontecialização da ciência, seu esvaziamento e seus limites. Institui o momento findo. Então, dá voz aos poetas. Dá acordes únicos às sinfonias. Abre da natureza sua cartela de cores e a oferece ao pintor. E tudo respira perplexidade. E tudo silencia. O homem conjuga o nunca mais. Intransitivo. Irrepetível. E devolve a chave.

Texto: 20/03/2015.