Muito se fala, nos dias de hoje, sobre o envelhecimento populacional brasileiro. Mas não poderia ser diferente: só de 2012 para cá, segundo o IBGE, houve um aumento de 18% na quantidade de pessoas que ultrapassaram a casa dos 60 anos. Na década de 1950, elas formavam um grupo de 2,6 milhões de indivíduos nessa faixa etária, representando 4,9% da população total. Hoje já são quase 30 milhões de pessoas acima dos 60 anos, representando 14% do total populacional. Isso mostra como a expectativa de vida do brasileiro vem aumentando ao longo dos anos, o que gera inúmeros desafios para os governantes, sobretudo quando o assunto é saúde.
A fim de abordar o tema, o Mania de Saúde ouviu a Dra. Eliza Miranda Costa Caraline, médica especialista em Geriatria e Gerontologia e professora do curso de Medicina da UniRedentor, que destacou como a longevidade tem mudado o contexto social do país e provocado mudanças de comportamento em relação aos idosos. “O Brasil, na verdade, é um ‘país jovem de cabelos brancos’. Diferente da Europa, envelhecemos de uma forma bem rápida e não estávamos preparados para isso. A expectativa de vida aumentou em mais de 30 anos desde a década de 1940 e, com isso, foi alterado o perfil de doenças. As pessoas pararam de morrer basicamente por doenças agudas (pneumonia, edema agudo, infecções) e passaram a conviver com doenças crônicas (hipertensão, diabetes, insuficiência renal, artrose, osteoporose...) sem estar preparadas para isso, faltando conhecimento e conscientização da importância de se cuidar e de monitorar adequadamente essas doenças crônicas para se ter um envelhecimento saudável e ativo”, disse a médica.
Ela ressalta, nesse contexto, a importância da Geriatria e Gerontologia. “O geriatra é um médico que cuida da promoção e prevenção de saúde até a reabilitação e cuidados paliativos. Somos clínicos com um olhar minucioso e atencioso para questões peculiares do envelhecimento. Muitas pessoas questionam se é necessário ir ao geriatra. E digo que, sim, é necessário. Na maioria das vezes, teremos um papel de organizador do cuidado, pois esse cuidado do paciente idoso fica frequentemente fragmentado, aumentando o risco de complicações e iatrogenias principalmente. É aquele paciente que vai ao cardiologista, ginecologista, neurologista, ortopedista e não comunica a eles o que o outro profissional fez ou prescreveu. E, quando chega ao geriatra, está, por exemplo, tomando 3, 4 medicamentos ao dia, com a mesma finalidade, prescritos por diferentes especialistas, colocando em risco a sua saúde”, alerta Dra. Eliza. “Já a gerontologia é o estudo do envelhecimento nos aspectos biológicos, psicológicos, sociais e outros, enxergando o paciente idoso como um ser global, biopsicossocial e não apenas como o ser portador de doenças. Os profissionais da gerontologia têm formação diversificada, interagem entre si e com os geriatras e podem ter diversas formações superiores, incluindo Direito e Serviço Social, além de todos os cursos na área de saúde”.
Com experiência no setor público e na rede privada, Dra. Eliza comenta como esses ambientes têm se comportado diante dessa nova realidade. “A saúde pública e privada estão aprendendo, na prática, a lidar com as demandas desse novo público. Ele é diversificado e tem necessidades específicas. Há muitas barreiras a serem superadas para termos, de fato, esse cuidado amplo e integral. Conflitos principalmente por questões financeiras são comuns, atrasando ou limitando nosso cuidado devido. Muitos pacientes precisarão de cuidados realizados por equipes multidisciplinares com fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, técnicos de enfermagem, terapeuta ocupacional, psicólogos, entre outros, além do médico. Essa conta não é barata. O fato é que a saúde como um todo precisa se reestruturar para acolher essa nova demanda crescente, não só apenas a saúde pública, mas também a suplementar (os planos de saúde), se ajustando para ofertar um novo modelo assistencial, voltado para promoção de saúde, prevenção de doenças e cuidado integral do paciente”.
Dra. Eliza aconselha, por fim, as famílias (ou os idosos) que ainda não buscaram um acompanhamento regular com o especialista. “Como disse, o geriatra será o principal organizador do cuidado da saúde e do bem-estar do paciente idoso. Sua presença e atuação serão fundamentais para um cuidado integral e um envelhecimento ativo, saudável, com promoção de saúde, prevenção de doenças, redução de danos, reabilitação e melhor qualidade de vida do idoso, preservando ao máximo sua autonomia e independência”.

Texto produzido em: 17/06/2019