Nas minhas duas últimas crônicas sobre as Gabors, não falei, que Magda, a mais discreta das três irmãs, que colocaram os Anos Dourados de cabeça para baixo com a sua irreverência, pode ser vista como heroína. Parece-me pertinente dizer que antes dos Anos Dourados, isto é, de 1942 a 1944, no transcurso da Segunda Grande Guerra Mundial, ela não só transportou feridos como motorista da Cruz Vermelha Internacional, como salvou muito deles da morte com risco da própria vida, tirando-os da Polônia ocupada pelos nazistas. Lembrei-me de Magda Gabor, porque acompanhando um sem número de e-mails e telefonemas elogiosos, em face das duas minhas últimas crônicas publicadas no Mania de Saúde, vieram críticas ferrenhas ao meu olhar tido como demasiadamente complacente sobre as Gabors. Alguns até desaforados, por ter tomado posição, em defesa dessas mulheres admiráveis. É que, para indignação de muita gente, me convenci, seguindo a esteira de August Nelaton, que “a pior das mulheres é bem melhor do que o mais sensato, puro e nobre dos homens”. Nelaton, é bom que se diga, nada mais fez do que acompanhar a opinião do grande Victor Hugo, que já havia sentenciado que “com a Mulher termina a terra e inicia o céu”.  
O meu inesquecível amigo Luís Antônio Pimentel, outro apologista do sexo feminino, vivia a repetir que Zsa Zsa, Magda e Eva Gabor só foram superadas pela sua mãe Jolie, segundo o seu juízo, a mais inteligente, a mais corajosa e a mais bela da família. E certamente, se estivesse vivo, teria me dado uns bons puxões de orelha por ter omitido o nome de Jolie, no primeiro texto que tratei dessas irreverentes beldades, no Mania de Saúde. A sua coragem era, sobretudo, cantada em prosa e verso aqui no Brasil por Domingos Abbês, que não esquecia de assinalar ter ela dado aquela cusparada na cara de um ricaço. O episódio ocorreu, por ter numa festa ele citado para ela, na vista de todos ao seu redor e em altos brados, a infeliz e equivocada advertência do grande poeta grego Hesíodo ao dizer que “quem confia numa mulher confia num ladrão”.
Verifica-se com tal ousadia que Jolie podia não ser intemerata, mas era intimorata. Estou convencido de que o comportamento ousado das Gabors era uma legítima reação contra a desfaçatez de um número significativo de homens machistas. Como esses faunos são de uma imbecilidade sem tamanho, o que sempre buscaram na mulher foi o seu rosto, quando bonito, ser acompanhado por um corpo escultural. Para eles, a mulher não passa de um simples objeto para ser desfrutado e não um ser humano para ser amado e, sobretudo, respeitado. Alguns desses imbecis, conforme Jolie certa feita afirmou, tiram até onda de intelectuais, como se interessassem de fato pelas mulheres inteligentes. Inspirando-se em sua mãe, a filha mais parecida com Jolie, isto é, a Zsa Zsa Gabor, ao tratar desse assunto, ainda que injustamente generalizasse, foi acachapante: “A única profundidade que os homens admiram em uma mulher é a do seu decote”...  

Texto:20/08/2016