Alguém já viveu a tua vida hoje? Talvez você nunca tenha se questionado a esse respeito, mas certamente passou – e passa – por inúmeras situações em que os outros tentam decidir a tua vida por você. 
O julgamento que as pessoas têm uma das outras é, desde tempos imemoriais, a maior causa de incompreensão entre os homens. Basta ler as tragédias gregas ou os comentários odientos do Facebook. A chamada empatia, palavra tão em voga na atualidade, ajuda a iluminar o problema. 
Ela vem do grego “empatheia” (“em” = dentro + “pathos” = sentir), cujo significado seria “sentir dentro”. Trocando em miúdos, entender o interior, colocar-se no lugar de alguém. A etimologia é reveladora porque, afora alguns poucos indivíduos que você elege, ou que o acaso escolhe por ti, a verdade é que ninguém consegue mergulhar em tua vida e compreender o teu estado mais essencial a ponto de manifestar alguma ideia realmente importante sobre você. 
Talvez por isso escritores como José Saramago detestavam se intrometer na vida alheia, como se o ato de dar pitacos sobre como você deve agir, pensar ou sentir fosse tarefa de terceiros. “Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro”, dizia ele.
Interessante como a frase de Saramago vai de encontro à lucidez do psicanalista Hélio Pellegrino. Na famosa carta ao amigo e escritor Fernando Sabino (cujo trecho abre a obra-prima dele, “O Encontro Marcado”), Hélio lembra que nascemos para o encontro com o outro – e não o seu domínio. “Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade”.
Mas não é assim em nosso dia a dia, evidentemente. O senso comum é previsível: sempre há alguém disposto a se meter na tua vida seguindo os preceitos dela, a vida que ela vive, os preconceitos que ela tem, a complexidade psíquica que só ela possui – desprezando, portanto, tudo o que você vivencia, desconsiderando toda a tua enorme singularidade. 
Eis o nosso drama de animal metafísico, como diria Schopenhauer.
É certo que a vida em sociedade, conforme lembra o escritor Alain de Botton, é cercada de diferenças entre as percepções que os outros têm de nós e a nossa realidade. “Somos acusados de estupidez quando somos cautelosos. Nossa timidez é interpretada com arrogância e nosso desejo de agradar como servilismo”. 
Mesmo assim, é um gesto importante, talvez imperativo, que pensemos um pouco antes de responder a alguma pergunta sobre fatos que não são nossos, vivências que não dominamos, sobre pessoas que não possuem nenhuma semelhança conosco. O outro não pode ser um “eutro”, como costuma brincar meu amigo Alexandre Bastos. 
Quem sabe assim invertemos a equação sartreana e os outros, em vez de inferno, passem a ser um paraíso para nós?

Texto: 20/03/2017