“Odiar o pecado é cristão, mas jamais será cristão odiar o pecador”. -  Santo Agostinho.

 

Muita gente estranhou ter falado numa entrevista que, embora anticomunista, um dos meus maiores amigos quando morei no Rio de Janeiro (1949/54) e quando dei com os costados em Niterói (1955/61) foi o comunista Luís Antônio Pimentel, festejado autor, dentre outras obras, de “Tancas e Haicais”, “A Ovelha e o Pastor”, “Corpo Falado” e “12 Dias com Leviana”.  Ele, certamente, pensando que poderíamos nos zangar, em decorrência de nossas ideologias conflitantes, jamais tocou em política nos bate-papos das noitadas alegres.
Limitávamos a abordar o brilho de grandes poetas e notáveis prosadores do nosso tempo. E como o querido amigo era poliglota, quantas vezes ele me proporcionou o deleite de belas páginas literárias, tanto de brasileiros como de ingleses, franceses, russos etc. Foi ele quem, nas noites cariocas e niteroienses, me fez ficar encantado com o brilho do poeta japonês Matsuo Bashô, o mago, o mágico dos haicais. Pimentel, porém, foi além da simples apresentação do grande poeta nipônico, pois me deu uma inesquecível aula sobre o lirismo e a concisão dessa bela forma de poetar. Ilustrando-a não só com os haicais de Bashô, como também com este poema de sua autoria: “O que é um haicai?/ É o cintilar das estrelas,/ Num pingo de orvalho”. Verifiquei, então, que mesmo sendo um poema de apenas três versos (uma redondilha menor, outra maior e a terceira novamente menor), pode nos levar aos páramos siderais.
Dias depois encontrei Pimentel, na Favela da Praia do Pinto, por ter eu recebido a incumbência de fazer uma reportagem sobre esse horror numa das áreas mais nobres da Capital do Brasil. É que Vinicius de Moraes suscitou forte comoção social bradando que, na Zona Sul do Rio de Janeiro, existe “uma praia dentro de outra praia, onde uma onda vem bater, verde-azul, a onda oceânica, e outra onde vem desaguar o Rio escuro, em sua mais sórdida miséria”. Nesse encontro, eu e Pimentel nos deparamos com um favelado morto num tosco abrigo e tendo nas mãos o crucifixo envolto apenas pela luz do Sol. E num piscar de olhos, o grande poeta altamente sensibilizado com a cena dramática abriu a sua alma tecendo este haicai: “Barracão escuro. / Nas mãos do morto sem vela/ Um raio de sol”. Aquele materialista dialético altamente sensível e bom, não teria ao menos vislumbrado, nos raios do Sol, a presença de Deus acolhendo em outro plano existencial um ser humano, que os bem-sucedidos ignoravam do alto do seu egoísmo? 
Lembro-me que Pimentel avocou a responsabilidade de dar ao morto condições de ser enterrado dignamente. E jamais esqueço de que o abracei emocionado, na caminhada para o cemitério. Contudo, houve um momento em que me indaguei. O que estaríamos fazendo, se os comunistas tivessem partido para a luta armada, na ânsia de implantar mentirosamente a ditadura do proletariado?  De armas na mão não estaríamos atirando um no outro? Agradeci a Deus por não ter acontecido a tragédia. E se tivesse ocorrido? E se nós nos matássemos? Para me aliviar, agarrei-me na crença de que seríamos abrigados pela misericórdia de Deus, após um longo período no Purgatório. E hoje, lembrando-me do que aconteceu, na Favela da Praia do Pinto, não canso de me perguntar. Até quando os seres humanos vão continuar odiando uns aos outros? Na verdade, não sei. Mas sei, que nos espera o Deus Amorável, o Bem Absoluto. Daí ainda acreditar no Céu. Mas, por que não anteciparmos um pouquinho o Céu aqui na Terra? Será que ainda não descobrimos que o mal é burro? Será que não estamos vendo o processo de autodestruição nos fulminando?