Eis que meu amigo Rogério me pede um depoimento sobre Rubem Fonseca. O Rogério e outros leitores vieram falar comigo da crônica em que narrei a trajetória do Otto Lara Resende, publicada na edição passada. Não foi inteiramente sobre o Otto, mas vá lá. Quem julga não sou eu. Mas quis saber o motivo do apreço. Foi surpreendente a história do Otto, eles disseram, “ainda mais por um veículo de saúde dedicar espaço à literatura, quando tantos outros ignoram”. Pelo menos foi isso que ouvi. Justamente agora, quando eu já estava me condenando por reviver tantos autores esquecidos ou mesmo mortos...
Mas o Rubem Fonseca está vivo, vivíssimo. Aos 91 anos, acaba de pôr na praça o seu “Calibre 22”, mais novo livro de contos do escritor que, desde “Feliz ano novo” e o “Caso Morel”, incluiu uma vértebra inquebrantável na espinha dorsal da literatura brasileira. Não é por acaso que ganhou o prêmio Camões, em 2003. 
(Talvez eu devesse discorrer mais sobre isso, agir um pouco como resenhista, ser menos pessoal... Mas o Rogério queria minha visão sobre o Rubem, enfatizou a necessidade do autor de “Agosto” ser lembrado etc. etc. E ele está certo. Mas acho que não serei impessoal nunca). 
O fato é que, se não fosse um livro específico do Rubem, eu não estaria aqui, escrevendo para vocês. Se isso é bom ou ruim é outra história, mas é a verdade. Vou contar o porquê. 
A “História da Leitura”, escrita pelo Alberto Manguel, mostra que o conceito de livros, tal como o conhecemos hoje, foi difundido por Santo Agostinho, na Idade Média. Ao que consta, ele foi o primeiro leitor a revelar a importância de ler em silêncio. Muitos não sabem, mas, até àquele período da história, a leitura era feita, essencialmente, em voz alta. Tratava-se de um costume, um hábito antigo na história humana. Vide as grandes epopeias gregas, que nasceram da cultura oral. Os livros respeitavam essa lógica.
Santo Agostinho, no entanto, gostava de ler em profundo silêncio, como se meditasse. O objetivo era simples: ele queria ouvir a voz do narrador sem que ela, necessariamente, se misturasse à sua. Com isso, o santo católico subverteu a ordem vigente e mostrou que os livros poderiam ser muito mais poderosos se lidos no silêncio do quarto, em vez da teatralidade das leituras em praça pública.
Você lembra da primeira vez em que ouviu essa voz silenciosa, vinda de um narrador? Eu lembro. Foi a de Rubem Fonseca, num exemplar de “A Grande Arte”, encontrado no meio de muitos livros antigos da biblioteca da escola. 
Até àquela altura, só havia lido alguns clássicos, como José de Alencar, Lima Barreto e Machado de Assis. Porém nenhum deles havia feito de mim um leitor, como queria Santo Agostinho. Talvez tenha sido a idade, mas, naqueles livros, só era possível decodificar palavras, o que é muito diferente de ler. Porém bastou abrir as páginas do Rubem Fonseca para, enfim, ouvir o narrador invadindo minha cabeça, contando uma história tão aterradora quanto próxima do universo contemporâneo a que eu estava inserido. Lembro-me de sentir os ouvidos moucos, como se um estrondo houvesse tirado minha audição por um tempo. Em casa, lia cada parágrafo e relia em transe, só para sentir o efeito de uma voz distinta dos meus pensamentos falando comigo mesmo. O ato de ler e ouvir o narrador, hoje tão comum, só ocorrera a mim naquele instante. Foi um choque. O espanto era tanto que, trêmulo, nem voltei para a sala de aula. Psicologicamente, acho que não voltei até hoje.
Fiquei tão aturdido que sequer terminei a leitura. Devolvi o livro na data certa e nunca mais o li. Não tive coragem de pegá-lo novamente, tamanho o assombro. Mas já queria escrever alguma coisa, emular de qualquer jeito aquela voz que eu ouvira e me fascinara. Em poucas semanas, redigi uma dúzia de contos e até mesmo romances. Depois, joguei tudo fora. Mas foi essa oficina alucinógena que fez de um mim um leitor e amante das palavras.
Queria que outras pessoas tivessem essa mesma sensação. Hoje, é claro, já li tudo do Rubem Fonseca. Mas jamais concluí “A Grande Arte”. Desde aquela experiência, o livro ficou sendo algo meio mágico para mim. É o único volume do Rubem que não quero ler. Se o faço, é como se maculasse uma imagem sagrada. Prefiro deixá-lo na estante, como um totem, um marco na minha existência, um símbolo de como um livro pode mudar toda uma vida. Queria que outras pessoas tivessem essa mesma sensação.
Especialmente hoje, quando ouço tantos professores se queixarem da falta de intimidade dos jovens com os livros, que vem comprometendo habilidades básicas, como a interpretação de texto. Se cada um deles ouvisse a voz de Rubem Fonseca como eu ouvi naquela tarde do início dos anos 2000, entenderiam como um simples objeto de papel oferece, a nós, tudo aquilo que mais buscamos desde que nascemos: um sentido para a existência.
Afinal, como diria um personagem de Sábato, o absurdo não está em viver. O absurdo, mesmo, é não ler.

Texto produzido em: 20/06/2017