Foto - Revista Estilo - Jairo Goldflus

Nossa reportagem aguardava ansiosa pela chegada de Letícia Sabatella ao teatro do Sesi, em Campos. Enquanto a atriz e cantora gravava uma pequena entrevista para o jornal da noite, pudemos acompanhar uma “canja” do que seria o show da Caravana Tonteria. Acompanhada por dois excelentes músicos (Paulo Braga e Fernando Alves Pinto), Letícia cantou um trechinho de “O sentido da vida”, samba de Sérgio Espíndola e Arrigo Barnabé, durante a passagem de som. Não restava dúvidas: estávamos diante de uma artista completa. 
A atriz, cantora e compositora desceu do palco para conversar com o Mania de Saúde e nos contou que a música está presente na sua vida desde a infância. “A música vem da minha mãe, da minha avó, dessas mulheres que cantam seus trabalhos, suas superações, que cantam as festas, que cantam para ensinar”. Letícia fala neste breve bate-papo sobre o fazer artístico, sobre engajamento político e sobre o novo projeto da Caravana Tonteria. Confira!
Mania de Saúde – Você está com a ideia de trabalhar com Edith Piaf e Bertold Brecht. Porque esse desejo de falar dessas duas figuras tão fortes?
Letícia Sabatella –
Eu faço uma música da Piaf no show da Caravana e o Bruno tinha uma ideia de fazer um trabalho em cima de Piaf e Brecht, o que deu a possibilidade do Aimar Labaki (dramaturgo e roteirista) escrever um texto muito interessante, pensando na formação da Caravana. A ideia é usar essa formação que já temos, eu, o Nando (Fernando Alves Pinto, marido de Letícia), o Paulo Braga, o Zéli Silva e, provavelmente, mais algum músico. Trataremos de um universo muito lindo em termos de dramaturgia, tanto com relação ao Brecht quanto à Piaf. Serão dois clowns contando a história de Bertold e Edith. Musicalmente é belíssimo, é histórico e uma delícia de fazer. 
Mania de Saúde – Brecht é um autor que, mesmo quando não aborda diretamente a política, fala de política. Ultimamente, temos lido na internet comentários dizendo que “ator não tem que se envolver com política”. Como você vê isso?
Letícia Sabatella
– Ser político é uma coisa muito inerente a você viver numa pólis, participar dela. Em tudo o que você se posiciona ou não se posiciona é sua postura política enquanto cidadão. Isso vai de acordo com o teu grau de responsabilidade com relação a isso, da percepção dessa responsabilidade. Mas é inerente. Eu não sinto que é uma coisa que você pode escolher muito, uma vez que você vive nessa pólis. É preciso que cada um procure saber como pode pensar politicamente em como contribuir nisso, de que maneira as políticas devem favorecer a população, que tipo de sociedade, de construção social, de pensamento coletivo nós queremos, tudo convergindo para que você tenha uma qualidade de vida comum. Porque não dá para ter isso só para alguns, já está mais do que provado que não traz felicidade você se superproteger em um sistema completamente miserabilizante, excludente. É fundamental que a gente pense dessa maneira, isso é pensar politicamente”.
Mania de Saúde – Porque você considera importante fazer arte, continuar fazendo arte nos dias atuais?
Letícia Sabatella –
“Porque a gente precisa cada vez de um espaço de transcendência. O sistema muitas vezes suga a possibilidade de reflexão e de vida, viramos ferramentas desse sistema, ‘vamos lá produzir, fazer uma renda para o mês’. E, com isso, vai perdendo espaço o ser, o encontrar-se. E a arte é um importante espaço de transcendência, de encontro, de reflexão. É uma janela que se abre no meio do concreto, um diálogo que faz você se encontrar”.
Mania de Saúde – Como é o Brasil que você sonha ver?
Letícia Sabatella –
“Um país onde haja igualdade. Onde tenhamos inteligência para gerar as matrizes energéticas que possuímos, autonomia e soberania para fundar ações mais protagonistas de novos rumos sustentáveis para o meio ambiente. Que a gente pense sempre em redistribuição de renda. Que tenhamos melhor acesso à formação não apenas tecnocrática, mas também à cidadania, tolerância, respeito às culturas locais, como a sertaneja, a ribeirinha. Isso é o que nos dá identidade e saúde emocional e mental. Desejo que consigamos absorver a sabedoria indígena. É preciso que nós tenhamos esse conhecimento histórico de onde estamos inseridos, quem é a nossa tribo, a nossa raiz. A dívida histórica que nós temos com relação à escravidão, à intolerância, temos que consertar isso antes de qualquer coisa. O espaço para sermos soberanos passa por essas culturas diversas. E Diretas Já! Diretas já não, Diretas sempre!”
A Caravana Tonteria de Letícia Sabatella passou, no mês de junho, pelas cidades de Macaé, Campos e Itaperuna, arrancando aplausos calorosos nas três cidades, sempre com casa cheia.  

Texto produzido em: 09/06/2017