Na edição passada, o Mania de Saúde publicou uma entrevista com o Dr. Thiago Cherem Morelli, de Florianópolis, que causou grande repercussão entre os leitores. Nela, Thiago deu exemplos de empatia com os pacientes e fez um alerta para a necessidade de termos uma medicina efetivamente humanizada, cuja maior expressão está na saúde da família. 
É essa área, aliás, que tem feito o curso de medicina da Faculdade Redentor, em Itaperuna, se destacar pelo país. Ao prestigiar a atenção básica em sua estratégia de ensino, a instituição acende um halo de esperança para a obtenção de uma nova cultura médica, com profissionais mais engajados com a comunidade, sem se restringir ao trabalho no consultório. 
Para abordar o assunto, entrevistamos o Dr. Paulo Cavalcanti Apratto Júnior, médico geriatra, doutor pela UERJ e docente do curso de medicina da Redentor. O relato do professor é contundente. Ele levanta uma bandeira que precisa, sempre, estar em evidência no país: a importância da atenção básica para a saúde pública. Confira e entenda o por quê.
Mania de Saúde – Como é o trabalho médico na atenção básica?
Dr. Paulo Apratto –
Para atuar na estratégia Saúde da Família (PSF) é imprescindível gostar de pessoas e não de doenças. Os profissionais devem trabalhar para a população de forma humanizada, com empatia e acolhimento. Afinal, são esses pré-requisitos que instrumentalizam o olhar do médico para observar as necessidades do território sob sua responsabilidade e, sobretudo, para perceber onde estão as vulnerabilidades e potencialidades, visando diminuir o sofrimento do usuário. 
De acordo com padrões internacionais, são exigidas do médico de família e comunidade habilidades básicas muito distintas das enfatizadas na maioria dos cursos de medicina do país. O médico de saúde da família não pode se limitar a um atendimento curativo em função de uma emergência qualquer. Integrando-se à equipe do programa, seu papel é proativo: atua na prevenção de doenças e na promoção da saúde comunitária. Os médicos de família precisam adotar uma abordagem abrangente dos problemas de saúde, incluindo a visão do impacto desses problemas na comunidade. Eles devem manter um relacionamento contínuo com seus pacientes, prestando cuidados centrados não na doença, mas na pessoa do paciente e no seu contexto familiar. E, claro, saber trabalhar em equipe, junto com a equipe multidisciplinar.
Mania de Saúde – Como o Sr. vê esses exemplos de humanização na medicina? Por que o atendimento humanizado chama tanta atenção se ele deveria ser a regra?
Dr. Paulo Apratto –
A humanização depende de nossa capacidade de falar e de ouvir. Depende do diálogo com nossos semelhantes. Humanizar a assistência à saúde é dar lugar não só à palavra do usuário como também à palavra do profissional de saúde. O compromisso com a pessoa que sofre pode ter as mais diversas motivações, assim como o compromisso com os cuidadores e destes entre si. Cabe a esta rede promover as ações, campanhas, programas e políticas assistenciais, tendo como base fundamentalmente a ética, o respeito, o reconhecimento mútuo, a solidariedade e responsabilidade. 
Para resolver os desafios e melhorar a eficácia no atendimento à saúde, não basta investir na eficiência técnico-científica e na racionalidade administrativa. Qualquer atendimento à saúde (assim como qualquer relação entre gestores e equipes profissionais) é caracterizado pelas relações humanas. É preciso, portanto, estar atento a princípios e valores como a solidariedade e a ética na relação entre gestores, profissionais e usuários. Uma ética que acolha o desconhecido e o imprevisível, que aceite os limites de cada situação e que seja pautada pela abertura e pelo respeito ao outro como um ser singular e digno. A proposta de humanização dos serviços públicos de saúde é, portanto, valor básico para conquistar uma melhor qualidade no atendimento à saúde dos usuários e nas condições de trabalho dos profissionais de todo o sistema de saúde. 
Mania de Saúde – Com isso, gestos de empatia seriam mais comuns? É essa ideia que está sendo implantada nos alunos?
Dr. Paulo Apratto –
Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, virtude não muito comum de se encontrar no ser humano hoje em dia. A capacidade de conversar e de se expor é o que alimenta o médico. Ele tem que se expor ao afeto. A oportunidade de conversar com pessoas automaticamente realimenta a empatia que o médico desperta, e é gratificante ser usado como referência de afeto e apoiar o paciente em um momento crucial da vida dele. Este é o grande desafio de ser médico: conviver com pessoas autenticadas por sofrimento. 
Tive uma experiência com uma paciente idosa, que era bibliotecária aposentada. Ela me entregou os exames que trazia em uma sacola e disse: “Doutor, acho que vou morrer”. Isso antes de desabar em um choro que não conseguia controlar. Era muito sofrimento. Ela disse: “minha bisneta faz 15 anos no final do ano e queria muito estar com ela nessa data”. A primeira coisa que fiz foi levantar-me da cadeira, contornar a mesa e sentar-me ao lado dela. Analisamos os exames e, despretensiosamente, eu disse: “É por aqui que nós vamos começar a tratá-la. E você estará com sua neta no final do ano”. Então, ela estampou um sorriso no rosto molhado de lágrimas e surpreendeu-se: “Mas então eu tenho tratamento?”. 
Este é o grande pavor de um paciente: a ideia de que a doença grave significa solidão e abandono. Começamos o tratamento. A doença dela era avançada, não havia muito o que fazer. Mas ela chegou ate à festa de 15 anos da bisneta… Falávamos de Rachel de Queiroz, Cartola, Elizeth Cardoso, Ângela Maria. Um dia, próximo da sua morte, ela me disse algo que achei extremamente interessante: “Olha, eu fui muito bem tratada, eu quero dizer que a melhor coisa que recebi durante todo o tratamento foi aquele dia em que você contornou a mesa para se sentar ao meu lado”. Foi um gesto simples! O que havia de tão extraordinário? Nada. Mas é justamente nesse tipo de gesto que reside aquilo que o paciente mais espera de um médico: a parceria. A certeza de que ele não estará e nem ficará sozinho até o fim. Não é possível humanizar a Medicina sem humanizar o médico, sem que o humanismo penetre na ação médica, permitindo ao profissional harmonizar a técnica com o humanismo numa simbiose produtiva. Humanizar a Medicina é reinserir a ciência médica nas suas verdadeiras origens, recuperar a essência da ação médica. E os médicos formados pela Redentor terão a oportunidade de viverem a medicina em toda a sua essência, para benefício da população.

Texto produzido em: 23/04/2017