Dias atrás, alguém veio me perguntar por que eu falava tanto de livros, em um tempo que parece desprezá-los. Bem, o fato de alguma coisa não “estar em evidência” não significa, necessariamente, que ela não exista. Lembrei ao meu interlocutor que a Divina Comédia, por exemplo, passou alguns séculos meio na obscuridade, até ser resgatada pelos intelectuais do século XIX, como nos lembra o poeta Eduardo Sterzi. Logo ela, a Divina Comédia, referida por Jorge Luis Borges como a maior alegria literária da história! Eis um bom exemplo para relativizar falsas verdades e colocá-las em perspectiva... 
Algum tempo depois, coincidência ou não, dois amigos vieram me mostrar os livros que estavam lendo. Fiquei surpreso, pois eles não se conhecem, mas tinham em comum a falta de intimidade com a literatura, devido à formação de cada um. Os motivos que levaram os dois à livraria, contudo, não se referiam a trabalho: ambos apenas se interessaram por determinada obra (um deles, por determinado autor) e ficaram entusiasmados com a viagem que é habitar o universo ficcional por algumas horas do dia.  
É reconfortante ver que, aos poucos, o incentivo à leitura, presente sobretudo nas redes sociais, pelos mais diferentes influenciadores e canais digitais, vem surtindo efeito. Querendo ou não, sempre esbarramos com alguém falando de literatura na rede. Isso me faz notar que, felizmente, não estou sozinho. E há, inclusive, uma razão mais profunda para qualquer produtor de conteúdo jamais desprezar esse estímulo: o nosso atraso cultural, que, como lembrava Nelson Rodrigues, era obra de séculos. Nesse sentido, não devemos nos questionar por que falamos tanto de livros, mas sim por que não falamos mais!
Aliás, para não perder a viagem, indico para vocês um lançamento fora de série: a Antologia da Literatura Fantástica, organizada por Adolfo Bioy Casares, Silvina Ocampo e o próprio Borges, republicada pela Cia. das Letras. Além de ser um apanhado fantástico (sem trocadilho) do melhor da literatura mundial sob a ótica desse trio incrível, traz, para o público brasileiro, textos sensacionais, de gente como G. K. Chesterton, James Joyce, Julio Cortázar, Léon Bloy, entre muitos outros autores conhecidos e desconhecidos. Há até um conto, em particular, que simboliza como poucos o poder da literatura sobre a humanidade: “Enoch Soames”, do escritor inglês Max Beerbohm. 
Não vou dar maiores spoilers aqui, mas, segundo a narrativa, um determinado personagem viajaria no tempo e estaria no dia 3 de junho de 1997, a partir das 14 horas, no Salão de Leitura do Museu Britânico, observando as pessoas ali presentes. O texto, contudo, foi publicado no ano de 1916, quase um século antes do evento fictício narrado por Beerbohm.  
O curioso, porém, é que o ator e roteirista americano Raymond Joseph Teller, nascido em 1948 e fã de Max Beerbohm, se deu ao trabalho de ir ao salão britânico na data e na hora pré-fixadas no conto, só para ver se Enoch Soames iria mesmo aparecer ou se ele encontraria, ao menos, alguém vestido com as roupas do personagem. Ainda em 1997, o ator disse, à revista Atlantic, ter encontrado vários leitores do conto de Beerbohm, que saíram da Califórnia, de Cambridge e de outros lugares, simplesmente pela ideia maluca de também presenciarem um fato “profetizado” por um escritor quase 100 anos atrás. 
Não se sabe se eles chegaram, de fato, a ver Enoch Soames no salão britânico, mas uma coisa é certa: o encontro com a literatura já havia preenchido de magia a vida de todos eles.