Quando insisto em falar, neste espaço, de bom jornalismo como meta fundamental para o exercício profissional na área da comunicação, pode parecer que estou exaltando qualidades da nossa redação no processo de apuração e confecção dos textos. Ledo engano. Não estou advogando em causa própria.

Estou, sim, preocupado com a prática recorrente do menor esforço laborativo, um vício estimulado pela Internet que, na maioria das vezes, menospreza o zelo com a qualidade (vide as notas de redação do ENEM).

Ao me referir a bom jornalismo, não falo da forma literária ou coloquial do seu conteúdo, mas das regras impostas pelos manuais de redação das bibliotecas de todas as faculdades, independente da fama, ou da nota de avaliação do MEC, visto que, sem regras na comunicação, ela só se faz presente através de ruídos rudimentares.

E essas regras se tornaram bem claras para mim quando o programa “Fantástico”, da Rede Globo, em 16 de maio de 1982, me entrevistou, enquanto presidente da Associação de Motociclistas do RJ (AMO-RJ), na Floresta da Tijuca, para celebrar a reabertura de todos os parques do país ao trânsito de motocicletas, que havia sido proibido durante a ditadura militar.

Tanto na matéria do “Fantástico”, como, principalmente, na extensa matéria “Seiscentos motoqueiros comemoram a vitória”, repercutindo o fato, na página 11 do Jornal “O Globo” de 17 de maio de 1982, o corpo de profissionais da emissora e do jornal observou a regra básica do jornalismo, que é, segundo o meu entendimento, ouvir todas as partes envolvidas, mesmo que o fato acima tenha ocorrido em um regime de força, onde as nuvens cinzentas da censura calaram durante tanto tempo a imprensa brasileira e que pareciam querer dissipar, mesmo diante dos interesses de uma parcela significativa de revoltados contrariados com a redemocratização do país. Daí o meu respeito e admiração pelo trabalho de qualidade impresso pelo sistema Globo na comunicação, assumindo, publicamente, os erros cometidos.

Daí o meu espanto quando assisti ao programa “Fantástico”, de 23 de agosto de 2015, quando foi ao ar, precedido de grande expectativa, a matéria sobre a “abertura de faculdades de medicina no Brasil sem as mínimas condições exigidas pelo MEC e com notas mínimas de avaliação”.

Chamei meu subeditor (que também havia assistido ao programa), para conversarmos e, rapidamente, elencamos pontos que imagino sejam fundamentais na regra do bom jornalismo para o melhor esclarecimento e transparência dos fatos, principalmente aos leigos, dos quais faço parte, apenas com o olhar atento e curioso de um velho jornalista.

  1. A reportagem não citou nem o primeiro nem o último colocado do ranking do MEC, o que seria uma tarefa básica do jornalismo. Ela elegeu um caso aleatório, que o MEC, inclusive, esclareceu, em nota, não ter autorizado o curso na referida faculdade “Fama”. “Sua abertura foi determinada por ordem judicial. O MEC já recorreu da decisão para derrubar a liminar em vigor”.
  2. Não foi mostrado nenhum caso de alunos que obtiveram o devido sucesso, em escolas com boas colocações, o que seria essencial para mostrar o contraste do assunto.
  3. Não citou o que é um hospital-escola ou mesmo a necessidade legal de eles serem a referência para o internato. Não citaram nem as novas diretrizes do MEC, que estão mais rigorosas.
  4. Como responsabilizar o ensino superior pela má qualidade do atendimento de saúde? O que tem uma coisa a ver com a outra?
  5. Não mostrou casos de hospitais referenciais, que sempre serviram como polo de aprendizagem, mesmo não estando ao lado de uma instituição de ensino.
  6. Não pareceram se importar com o fato de que a falta de médicos é uma realidade. Como disse o próprio MEC na reportagem, no Brasil, existem 1,8 médicos por mil habitantes. A média das Américas, incluindo EUA, é de 2,2 e a da Europa é de 3,3. O esforço de interiorizar a formação é justamente para tentar minimizar esse problema, como já referiu o MEC. 
  7. A reportagem ouviu um especialista em educação médica da USP, que estudou “Surgimento recente de escolas de medicina”, mas sem citar que estudo seria esse, nem como foi feito e sem fundamentá-lo para o entendimento público.
  8. Outro ponto crucial: a reportagem disse que nenhum curso de medicina atingiu a nota máxima do MEC, ou seja, 5, mas não explicou que, na prática, esse é um conceito raramente atingido, por gerar desconfiança. O MEC esclareceu, em nota, que a nota mínima para abertura de cursos de medicina na atualidade é 4 (em uma escala de 1 a 5). Uma escola com conceito 1, obviamente, não pode jamais ser comparada com a que tem o conceito 4.

Por que dar a impressão de que todas estão no mesmo saco?

Texto produzido em: 25/08/2015