A vida é didática. Quando iniciei no jornalismo, há uns 10 anos, me dediquei à área cultural. Fazia reportagens, mas houve momentos em que também escrevia artigos de opinião, em primeira pessoa, como este que você está lendo. Em um dos textos, decidi abordar a obra do poeta Manuel Bandeira. Um desastre, é claro. Mas hoje percebo o quanto ele me ensinou sobre o ato de dar opiniões.
Bandeira foi um dos primeiros poetas que me despertaram o interesse. Logo que comecei a trabalhar, adquiri não apenas a obra completa do pernambucano, como também a bibliografia disponível nas editoras sobre ele – ensaios críticos, teses, memórias etc. A inteligência catedrática aliada à ternura simples de Bandeira me encantavam. Elas equivaliam a uma faculdade de bambas, como já se referiu Zuenir Ventura. Fiquei feliz, lá pelos 20 anos, ao encontrar no Orkut, o embrião das redes sociais de hoje, uma comunidade de jovens admiradores do poeta. Havia até um astrofísico que estudava nos EUA e era apaixonado pelo autor de “Libertinagem”. “A obra do Bandeira não me deixa afundar na estupidez”, dizia.
Pois bem. Pediram-me um texto opinativo no jornal. Mas que assunto eu, um novato na profissão, dominaria a ponto de me manifestar para os leitores? Não hesitei: Manuel Bandeira. Havia lido sua obra completa, destrinchara todos os seus versos, bem como toda a fortuna crítica e livros de terceiros... Seria fácil escrever um texto conciso e eloquente sobre o poeta. Só que não. 
Nem me recordo o que escrevi, mas sei que, quando abri meu e-mail, no dia seguinte, me deparei com uma mensagem do jornalista Péris Ribeiro, me parabenizando por lembrar de Bandeira, mesmo sendo tão jovem. Péris elogiava o texto. Mas, entre os elogios, intercalou um cabedal de informações e percepções que eu jamais tivera sobre Manuel. Fiquei imensamente surpreso e envergonhado. O e-mail de Péris é que deveria ter ocupado o espaço que meu texto ocupou no jornal. Sem saber, ele me deu uma aula bandeiriana. Tive vontade de enfiar minha cara no chão. A partir dali, passei a ter um critério imenso ao transmitir informações e, principalmente, opiniões em jornal. Comecei então a fazer crônicas, este sim o gênero menos pretensioso do jornalismo.
Essa história me veio à cabeça quando me deparei, no mês passado, com uma enxurrada de textos, vídeos e relatos de leitores comuns e de pessoas famosas, de Leandro Karnal a Steven Pinker, desabafando a tristeza (ou irritação) quanto a duas das coisas mais tenebrosas do tempo em que vivemos: o esgoto que se tornou o debate público na internet e o crescente hábito das pessoas opinarem sobre tudo, sem, no entanto, terem embasamento algum para aquilo que estão falando na rede.
Não precisamos recorrer aos teóricos da comunicação. Entre no Facebook, no Youtube ou nos sites de notícia e repare os comentários dos leitores. Aqueles que realmente tentam estabelecer um diálogo frutífero com determinado conteúdo acabam sempre sufocados por internautas ignorantes, agressivos, odientos, estúpidos, que na maioria das vezes sequer leem o texto (ou veem o vídeo) em questão e já discorrem asneiras pela página de quem o produziu. “Estamos famintos de silêncio”, diria Bandeira, se vivo fosse.
Nessas horas, suspiro fundo e lembro de Péris Ribeiro, acordando de manhã, ligando seu computador depois de ter lido uma crônica no jornal sobre um poeta de que gostava. Fico imaginando o jornalista abrindo seu e-mail, feliz por poder compartilhar uma impressão tão simples – o hábito de ler poesia – e, no meio dessa felicidade, querer trocar ideias, em busca de um diálogo enriquecedor, simples, humanístico, profundo, humilde, mesmo tendo muito mais experiência e conhecimento do que o jornalista a qual ele se dirigia.
Poderiam existir mais Péris Ribeiros por aí...

Texto produzido em: 25/10/2016