“Como a ideologia e a religião, a arte é uma tentativa de dar sentido à vida”. – Michel Laub.

 

Não sou noveleiro, na acepção de pessoa que adora telenovela, isto é, que não perde um capítulo das novelas teatralizadas e apresentadas pela televisão, mas, embora não tendo acompanhado o desenrolar da badalada “A Regra do Jogo” em sua integralidade, adivinhei o desfecho a repetir a vitória do Bem sobre o mal. Afinal, o happy ending é a forma da mídia quando voltada para a ficção atenuar o horror que leva todos os dias aos nossos lares com os seus noticiários aterrorizantes.
Todavia esse horror decorrente do fait divers, melhor dizendo, das pequenas notícias diárias no noticiário, não é totalmente minimizada pelas telenovelas. É que a arte, sem dúvida tentativa reconfortante, revigorante a dar alento à vida vivida, quando se situa na esfera do conto, da novela, do romance, do teatro e da telenovela, não raras vezes trabalha com a tragédia existencial que engolfa, que abisma o ser humano. Não só se valendo da angústia que nos abate como também do caos existencial a nos deixar perplexos. Só os papalvos ainda não constataram que as manifestações artísticas, umas mais intensamente, outras menos fortemente, espelham os paradoxos existenciais. Por entenderem que a própria vida na Terra é uma loucura, algo sem qualquer nexo, os corifeus da pós-modernidade colocaram de lado o verossímil da estética realista, para se ater ao enigmático a suscitar um sem número de interpretações. Se, por exemplo, a história contada é captada, como se fossem várias histórias, segundo as opiniões díspares dos leitores, pode-se entender com alguma lógica que se trata de um texto intencionalmente caótico.
Não é o caso de “A Regra do Jogo”. Sob o aspecto formal, o enredo central dessa novela não é caótico, daí não ser incompreensível. Mas espelha o caos. É um retrato sem retoques dos valores familiares defendidos pela nossa civilização dita cristã sendo jogados no brejo, quer pelo hedonismo dominante, quer pela miséria que afeta grandes segmentos da sociedade que se esfacela tragicamente. Há quem chegue a afirmar que a volta à promiscuidade em sua etapa panaliana, que está ocorrendo agora, quando ninguém é de ninguém, numa troca de maridos e esposas sem traumas, enfim, com a tranquila aceitação dos envolvidos, é algo positivo. Embora seja um retorno ao tempo dos homens das cavernas, não seria um retrocesso, mas uma evolução, por estar freando a violência decorrente do ciúme. Não se pode negar, assim, que sob esse aspecto a história relatada em “A Regra do Jogo” é altamente verossímil. E mais se parece ainda como verdade, quando pinta com cores fortes o fato de o banditismo ser comandado por expressivas camadas da elite do dinheiro, segundo as regras mortais do jogo de um mundo caótico. 
Mas ao lado daquilo que parece com verdade, temos o inverossímil de pessoas ótimas descenderem de um pai e avô que levou a maldade aos últimos patamares, na escala da monstruosidade, não tendo nem um pouquinho do seu DNA. “A Regra do Jogo” é, assim, uma mistura caótica de verossimilhança e inverossimilhança, de verdades possíveis e de absurdos inacreditáveis. Se o meu amigo Luís Antônio Pimentel estivesse vivo, certamente teria ponderado que histórias que misturam o verossímil com o inverossímil no fundo refletem o mundo em que vivemos. E nos exortaria para que realizássemos uma reflexão sobre a Natureza, mãe e madrasta tenebrosa a nos propiciar ao mesmo tempo a alegria e o desespero, mesclando a vida e a morte com os seus destemperos. Sem deixar de nos alertar que a Natureza é indiferente aos valores humanos, daí o caos que nos aterroriza. Já o Michel Laub da epígrafe nos diz que “como a ideologia e a religião, a arte é uma tentativa de dar sentido à existência”. Há quem afirme que o sentido que buscamos pode apontar para o horror do próprio sentido encontrado, o sentido caótico do sem sentido. Parece-me, porém, que se pode encontrar um sentido no caos que nos envolve, algo distinto de suas entranhas demoníacas. Este sentido está no coração do ser humano a pinçar no caos os seus aspectos positivos a darem corpo à dádiva da virtude teologal da Esperança. O sentido do exercício da arte da bondade em todos os momentos de nossa vida. Exercício permanentemente praticado pelo meu amigo Luís Antônio Pimentel que, apesar de materialista, eu consigo divisá-lo tecendo os mais belos e ternos hai-cais ao lado de querubins e serafins no mais alto dos páramos siderais. 

 

Texto: 20/01/2016