Rosto de galã, vida de leitor

Foto: Andréa Dematte
Juliano Cazarré

Quem segue o ator Juliano Cazarré no Instagram teve uma surpresa durante a quarentena. O rosto de galã, que até ontem tomava as TV’s por meio de “Amor de Mãe”, novela das 21h da Rede Globo paralisada temporariamente devido à pandemia do coronavírus, passou a ganhar as telas dos PC’s, tablets e celulares lendo trechos de grandes clássicos da literatura mundial, promovendo um verdadeiro incentivo à leitura aos seus quase 1 milhão de seguidores.

Para abordar esse tema, que sempre foi caro ao Mania de Saúde, Juliano concedeu uma entrevista exclusiva à nossa revista, onde abordou a história dele com os livros, opinou sobre a educação no Brasil e ainda deixou uma mensagem importante aos nossos leitores, dando um grande exemplo de esperança e positividade, para que consigamos ultrapassar esse estágio ainda mais atentos e fortalecidos – e, também, mais leitores. Confira!

Mania de Saúde: Como começou sua relação com os livros e como ela repercute hoje em sua vida?
Juliano Cazarré: Minha relação com a leitura começou com o meu pai lendo para a gente na beira da cama e, também, por vê-lo sempre com um livro na mão. Tive esse exemplo do meu pai ali, lendo os livros dele, bem como das histórias que nos contava à noite. Depois fomos crescendo e ele nos incentivou muito a ler. A grana lá em casa era apertada, mas o meu pai sempre levava a gente na livraria e deixava escolher alguns livros. Lembro também de ir com ele na Feira do Livro em Brasília, quando acontecia. Então, os livros sempre foram muito presentes na nossa casa. Meu pai sempre incentivou muito a leitura. Quando ficamos mais velhos, ele inclusive cobrava: “O que você está lendo de bom?”, “Tem que ler alguma coisa”.
Mania de Saúde: Houve um motivo a mais para iniciar esse projeto de leitura ou foi apenas devido à quarentena? Como tem sido o retorno do público?
Juliano Cazarré: Eu já vinha pensando, antes da quarentena, em fazer alguma coisa no Instagram envolvendo a leitura, porque eu sempre leio para os meus filhos à noite. Minha ideia era colocar alguma coisa nos stories, lendo alguns capítulos dos livros que costumo ler para as crianças, mas não tinha ainda formatado na minha cabeça o que, de fato, eu queria fazer. Quando veio a quarentena, decidi fazer essas leituras sem me preocupar muito com o formato. Quis apenas pegar alguns livros, ler e colocar no IGTV. Foi assim que tudo começou. Tenho gostado muito da experiência, é muito bom poder ler o livro, inclusive fazer alguma reflexão ali, quando dá tempo, sobre o que eu acabei de ler. Acabo aprendendo com isso e o retorno do público tem sido muito bom. Muitos seguidores vêm falando que é um alívio no dia deles quando chega um vídeo meu, agradecem por eu estar proporcionando ali um momento de reflexão, de beleza, enfim, tem sido um retorno muito bom.

Mania de Saúde: Como você enxerga a questão da leitura no Brasil?
Juliano Cazarré: A questão da leitura no Brasil realmente é muito problemática. A gente sabe que os nossos índices de leitura são baixíssimos e isso é reflexo da própria educação brasileira, que realmente está em um momento muito ruim, decaindo há várias décadas, praticamente batendo no fundo do poço. O Brasil ainda prioriza muito a educação universitária. Mas os que chegam às universidades públicas em geral são os filhos das classes média e alta, que conseguem passar nos vestibulares. Então, a gente fica pagando universidade gratuita para quem pode pagar. Abandonamos muito, por exemplo, a educação básica. O método de alfabetização no Brasil apresenta resultados baixíssimos e o país tem essa coisa de tentar ensinar a ler já pela frase, pela ideia, em vez de ensinar o bê a bá, que é como acontece no mundo inteiro e é como sempre funcionou. Acho que isso acaba acarretando nesses baixíssimos índices de leitura que a gente tem. Há pouco tempo, por exemplo, eu estava lendo alguns dados de um painel brasileiro sobre analfabetismo funcional. E os números são assustadores. Apenas uma pequeníssima parte da população brasileira consegue ler um texto de tamanho médio, compreender tudo e resumi-lo no final. Ou seja: não é nem ler um livro mais complicado, um livro mais longo. Só um texto um pouquinho maior já dá problema. Essa situação é realmente uma desgraça para o país. E descobrir o caminho para sair desse estágio ainda vai demorar décadas, porque mesmo os adultos, hoje em dia, já trazem essa formação ruim. Então, os adolescentes, os jovens e as crianças, tendo gente mal formada acima deles, também não têm uma perspectiva muito boa. É uma situação que me preocupa muito.

Mania de Saúde: Que mensagem você gostaria de passar para o público nesse momento de tanta desinformação e histeria?
Juliano Cazarré: Temos que ficar atentos às notícias, procurando informações em veículos diferentes, com várias fontes diferentes, buscando pontos de vista distintos e evitando ter um ponto de vista só, porque há muita desinformação de fato e muita gente querendo criar um ambiente de histeria. Nada é melhor para controlar as pessoas do que o medo. Quando as pessoas estão com medo, elas topam qualquer coisa. É necessário, portanto, que estejamos sempre alertas. Se por um lado é uma doença difícil, em que as pessoas sofrem muito quando precisam ser internadas ou entubadas, por outro, se a gente entrar numa depressão econômica gigantesca, isso vai ser ruim para todo mundo. Temos que ter bom senso. E é óbvio que não dá para ficar trancado em casa se escondendo do vírus debaixo da cama para sempre. Precisamos ficar atentos, ter muita positividade e fé em Deus de que tudo vai melhorar, prestando muita atenção para formar a nossa opinião de uma maneira livre, tentando sempre obter o máximo de pontos de vista possível.