O valor dos profissionais em tempos de pandemia

A médica do trabalho e pediatra Dra. Vanda Terezinha Vasconcelos, presidente da Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia (SFMC)
A médica do trabalho e pediatra Dra. Vanda Terezinha Vasconcelos, presidente da Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia (SFMC)

Se a luta contra o Covid-19 tem sido tratada como uma verdadeira guerra por diversos chefes de estado em todo o mundo, os profissionais de saúde podem ser vistos como os grandes soldados dessa batalha. Afinal, são eles que estão na linha de frente do combate à pandemia, lidando com os mais diferentes tipos de público, muitas vezes em condições adversas, como falta de testes e de equipamentos de proteção individual, só para citar os exemplos mais comuns. Isso tudo gerou, nas redes sociais, uma verdadeira onda de comoção e solidariedade, onde o público agradece os profissionais de saúde pelo seu empenho e dedicação, rendendo a eles diversas homenagens por meio de desenhos, músicas, presentes e vídeos que viralizam na internet.

Para a médica do trabalho e pediatra Dra. Vanda Terezinha Vasconcelos, presidente da Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia (SFMC), todas essas manifestações são oportunas para refletir sobre o papel dos profissionais de saúde na atualidade. “Nos últimos anos, ficamos espantados ao notar como os profissionais de saúde se tornaram uma classe marginalizada, devido a uma certa ideologia de atribuir, à determinadas categorias profissionais, responsabilidades pelo mau êxito político de certos gestores. O mesmo ocorreu com a classe educacional. A mentalidade, portanto, era retratar sempre um sistema de saúde ruim, um ensino público péssimo, um atendimento precário, repleto de profissionais que, na visão dessas pessoas, só queriam levar vantagem. Daí surgia uma cobrança exorbitante, como se o atendimento dependesse exclusivamente do ser humano, esquecendo-se de que faltava material, medicação, faltava tudo. Atribuía-se aos profissionais de saúde uma conta que não era deles. Agora, porém, todos estão sendo vistos como os grandes heróis nesse momento. O próprio SUS passou a ser elogiado, sendo que, até pouco tempo, era apenas detratado por muitos. Mas o bom trabalho, felizmente, sempre vai resistir às ideologias”, diz Dra. Vanda.

Ela conta como a pandemia do Covid-19 tem sido um cenário desafiador para técnicos, assistentes, enfermeiros, médicos e demais profissionais de saúde. “Hoje temos um grande número de trabalhadores afastados, infectados e alguns que, infelizmente, vieram a óbito. Mas o combate à pandemia continua, demonstrando o quanto a classe de profissionais de saúde é essencial ao nosso país, fazendo o que pode e o que, muitas vezes, nem está podendo mais”, ressalta a médica. “A gente tem visto, por exemplo, médicos e enfermeiros exauridos após plantões de atendimentos enormes, muitas vezes sem condições de se proteger ou de atender eficazmente aquelas pessoas que estão chegando até eles. Tornou-se comum ver profissionais de saúde chorando, angustiados, tendo sérios problemas psicológicos, porque se isolam de suas famílias ou saem dali preocupados em levar o vírus para casa. Então, é um estresse físico e psicológico muito grande, o que torna o contexto de combate à pandemia ainda mais difícil”, acrescentou.

Foto: Banco de Imagens

A pandemia do Covid-19, segundo a médica, tem mudado a cabeça do público. “As pessoas estão vendo que não se trata de um problema local. No nosso caso, sempre tivemos um sistema de saúde que foi precarizado em diversas ocasiões. Trabalho praticamente há 50 anos nessa área e já vi posto de saúde que, muitas vezes, não tinha nem água com sabão para lavarmos as mãos depois de atender um paciente. Essas questões, portanto, não são de agora. Mesmo assim, o SUS é preconizado como uma das melhores assistências de saúde do mundo. Se a gente olhar para outros países, o cenário é bem distinto. Os EUA, por exemplo, não têm uma assistência voltada para o atendimento à população em geral. Eles têm uma assistência em saúde privada. Se o cidadão ficar doente, e precisar de um serviço de saúde, depois arrastará uma dívida gigantesca, gerando outros problemas para ele e sua família. Isso mostra como o SUS, mesmo com suas limitações, tem sido uma peça-chave em nosso país, tanto para garantir acesso aos serviços, quanto para troca de informações, que é essencial nessa pandemia”. Por falar em informação, Dra. Vanda ressalta a necessidade de se confiar na ciência, em tempos de muitas fake news disseminadas pelas mídias sociais. “Temos sempre que ser responsáveis, especialmente em um momento como esse. Não adianta espalhar informações equivocadas que só agravarão o problema. A ciência em todo o mundo está em busca de respostas mais concretas para esse vírus, inclusive quanto à tão esperada vacina. Mas sempre lembro da quantidade de pessoas que, depois de uma crise, se esquecem da importância da vacinação ou acreditam que ela não seja necessária, o que fez, por exemplo, ressurgir uma crise de sarampo recentemente. O melhor remédio é, sempre, a informação”.