Medicina no sangue

Medicina no sangue“Em certos momentos, a gente percebe que a criatura supera o criador. Mas é assim que tem que ser: a gente cria os filhos para serem melhores do que nós”

Há pouco mais de 20 anos, quando acabava de se aprontar para um dia de plantão no Hospital Ferreira Machado, a hoje médica psiquiatra Dra. Lana Maria Pereira ouviu do seu filho, o pequeno Caio Augusto, a frase que certamente muitas outras mães que exercem a medicina já ouviram: “quando eu crescer, não vou ser médico, não quero largar meus filhos em casa”. O pedido de atenção veio à memória de Dra. Lana, duas décadas depois, ao ver Caio Augusto se formando justamente em medicina, logo depois de se graduar em Direito, contrariando todo o diagnóstico que fizera a si mesmo em tão tenra idade. O que será, então, que mudou?

Talvez a própria trajetória de sucesso da prestigiada médica tenha entrado na veia do filho, ainda que a conta-gotas, enquanto acompanhava todo o movimento ascendente de Dra. Lana na carreira. “Quando vim morar em Campos, há 23 anos, o Caio tinha uns 8 anos de idade. Eu estava recém-formada, morava em Niterói, mas queria uma melhor qualidade de vida para mim e para meu filho. Afinal, seria muito difícil, como médica, atuar no Rio de Janeiro e ter acesso fácil ao Caio. Queria poder estar mais próxima, acompanhar mais de perto a criação dele”, explica Dra. Lana. “Aqui eu tinha uma rede de apoio, pois minha mãe morava em uma cidade próxima. Decidi então vir para Campos, embora ainda não conhecesse muito bem o município. Mas um colega de faculdade me alertou para essa oportunidade e comecei a trabalhar no Ferreira Machado, ficando assim mais próxima do meu filho”, acrescentou a médica que, já radicada em Campos, voltou ao Rio para se especializar em psiquiatria e, desde então, se tornou uma das referências na área, sendo uma das proprietárias da clínica Vila Verde Campos, junto com outros sócios psiquiatras e amigos, além de responder pela saúde mental no município e ser preceptora do curso de medicina da UniRedentor/Afya, em Itaperuna.

Apesar dos períodos em que sentia falta da mãe na infância, Dr. Caio Augusto revela que o exemplo dela foi decisivo para cursar medicina, ainda que isto só fosse ocorrer muitos anos mais tarde. “Sempre acompanhei o dia a dia dela, vendo a medicina de perto, mas a consciência e a responsabilidade que a profissão exige só ficaram evidentes para mim muitos anos depois. Acabei fazendo Direito e me formei como advogado. Mas, em 2017, vi que era a hora de dar esse passo na profissão que tanto fez e faz parte da minha vida, por conta da minha mãe”, afirma Dr. Caio, lembrando o tempo em que Dra. Lana atuou como médica de família, algo muito presente em sua memória. “Na época do ESF, via minha mãe nas comunidades, acompanhando situações de extrema pobreza, exercendo uma área que não é tão valorizada, mas que é crucial para o sistema de saúde como um todo. Afinal, o trabalho na atenção primária é que vai diminuir o fluxo na atenção secundária e terciária, evitando que as pessoas adoeçam e cheguem aos hospitais. Me chamava bastante atenção essa possibilidade de ajudar as pessoas sem julgamentos ou preconceitos”, diz Dr. Caio. “Afinal, não importa se o paciente é uma pessoa de boa ou má índole, nosso papel é colher sua história, fazer uma boa anamnese e tratar a saúde dele. Era o que via minha mãe fazendo e hoje se tornou meu objetivo também”, comenta o médico, que, entre as suas opções, pensa em fazer anestesiologia.

Para Dra. Lana, claro, foi uma surpresa, mas também a confirmação de uma escolha assertiva lá atrás. “É muito gratificante vê-lo como médico, porque eu decidi vir embora, morar em uma cidade nova, mudei toda minha rotina e hoje vejo que foi uma decisão correta, porque favoreceu essa proximidade. No Direito, por exemplo, eu via um bom aluno. Na medicina, no entanto, vejo um médico apaixonado. Isso me dá a certeza de que ele será um excelente profissional”, frisa Dra. Lana, revelando como é a interação entre os dois, já que agora são colegas de ofício. “É um pouco diferente porque a psiquiatria é muito específica. Mas, quando a gente conversa, acaba sendo um aprendizado, porque ele está vivendo um momento de muita transformação na medicina. Hoje o Raio-X é digital. Já a ressonância era algo difícil na minha época. Mas, hoje, virou um exame mais acessível. A gente acaba conversando muito sobre essas transformações e, em certos momentos, a gente percebe que a criatura supera o criador. Mas é assim que tem que ser: a gente cria os filhos para evoluírem e serem melhores do que nós”.