Conviva bem com o HIV

Conviva bem com o HIV
O médico infectologista Dr. Marcus Vinícius M. Miranda

Dr. Marcus Vinícius M. Miranda explica como lidar com a doença

Você com certeza deve se lembrar de como Freddie Mercury, Cazuza e Renato Russo enfrentaram a AIDS quando a doença possuía um alto grau de mortalidade. Os astros da música, infelizmente, não tiveram tempo para se beneficiar do avanço da medicina e da indústria farmacêutica, que hoje garante sobrevida a inúmeros portadores do HIV. Basta observar as estatísticas: cerca de 38,4 milhões de pessoas são soropositivas na atualidade, quantitativo que seria impensável duas décadas atrás.

Mesmo com esse avanço, porém, o tratamento do HIV continua sendo um desafio enorme para a classe médica, pelo nível de desinformação existente na sociedade. Embora os medicamentos venham garantindo uma melhor qualidade de vida a todos, ser soropositivo ainda é um fardo para muitos pacientes, que sofrem com o preconceito em torno da doença, como revela o médico infectologista Dr. Marcus Vinícius M. Miranda.

Conviva bem com o HIV“Hoje em dia, a gente encara o HIV de outra forma, porque ficou mais fácil tratar a doença. Isso faz com que as pessoas venham ao consultório com menos medo, diferente da época em que me formei, há exatos 16 anos. O medo da doença, portanto, foi superado, porque o HIV tem remédio, tem tratamento. Mas, infelizmente, a gente ainda encontra muita desinformação e preconceito, mesmo com a difusão do HIV na sociedade”, diz o médico. “Tenho pacientes, por exemplo, que sentem vergonha de serem atendidos no serviço público e, por esse preconceito, buscam os consultórios particulares, não apenas o meu, mas os dos meus colegas infectologistas também. São pessoas que apresentam mais o sentimento de culpa por ter que expor a doença do que o medo dela propriamente dita”, ressaltou Dr. Marcus.

Ele conta mais detalhes sobre o problema. “O HIV é uma doença crônica, em que o paciente, estando com boa adesão, torna o tratamento ainda mais fácil, porque o remédio é de grande eficácia. A gente não se preocupa tanto, por exemplo, com a possibilidade de efeitos adversos e a interação medicamentosa fazerem prejuízo de saúde ao organismo do paciente em tratamento. A indústria farmacêutica evoluiu tanto que trouxe para a gente medicamentos com pouquíssimos efeitos adversos e com uma eficácia enorme no tratamento do HIV. Então, trabalhando bem a adesão, fazendo o paciente entender a doença, fica mais fácil de tratar”.

Para isso, segundo Dr. Marcus, é importante que o paciente faça uso de um grupo de medicamentos da classe dos antirretrovirais, a fim de bloquear a multiplicação do vírus no organismo para, assim, atingir a estabilidade clínica. “Sem essas medicações, o paciente não consegue lidar com a doença, pois o HIV vai minando a imunidade do paciente ao longo dos anos, sendo incompatível com a vida. É preciso, então, que ele use os medicamentos para preservar a saúde. Mas existem outras medidas importantes, já que o tratamento inclui algumas vacinações, reforços imunológicos e orientações dentro de tudo aquilo que faz bem para a saúde: atividade física, controle do peso e alimentação saudável, mas sempre com o antirretroviral, que é o carro-chefe do tratamento”.

Por fim, Dr. Marcus explica que o tratamento do HIV, na atualidade, exige do médico mais a parte humana do que a parte científica. “O que dificulta o tratamento é a aceitação do indivíduo consigo mesmo. Tenho pacientes que acompanho há mais de uma década e ainda não são bem resolvidos quanto à doença. Isso varia de pessoa para pessoa, já que envolve questões de formação, temperamento, etc., mas o contexto do diagnóstico é sempre tenso. Isso porque ninguém gosta de expor sua sexualidade. Mas, se você chega no consultório médico com uma doença adquirida sexualmente, não tem jeito, você tem que falar sobre isso”, comenta o médico, ressalvando que existem outras formas de transmissão do HIV, como o compartilhamento de objetos perfuro cortantes, mas o que predomina é mesmo a transmissão via sexual. “Isso significa que, além de fazer a análise científica daquele organismo, a gente precisa despir a pessoa dos próprios preconceitos que ela mesma carrega, a fim de que, livre desse peso, ela consiga entender e aceitar a doença, aderindo ao tratamento para, enfim, poder viver bem”.