Eles ajudam a salvar o mundo

(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
sthevodamaceno@maniadesaude.com.br

Difícil encontrar alguém que não tenha, nas suas memórias de infância, algum professor ou profissional de saúde, fosse por ter nos ensinado algo valioso ou nos curado de alguma enfermidade. Na minha vila, por exemplo, havia um dentista que marcou em muito a nossa juventude, o famoso Carlos Henrique. Em início de carreira, ele acabara de ser contratado para atender em nossa vila, no mesmo momento em que meus pais formavam sua prole. Isso fez com que todos crescêssemos indo ao Carlos Henrique. O mesmo ocorrera, claro, a todos os nossos vizinhos, fazendo dele uma onipresença em nossas vidas. Daí a admiração comum a todos, já que Carlos Henrique tinha uma carreira em outra cidade, onde de fato construía seu nome. Ou seja: no fundo, ele tinha todos os motivos para não estar ali, sempre chegando de madrugada à nossa vila, para enfrentar um consultório com poucos recursos, naquele lugar distante, sem perspectivas de crescimento. Mas Carlos era exemplar: cumpria seu ofício com uma humildade franciscana, uma doação quase religiosa, não raro levando materiais do próprio consultório para tratar cada paciente, independente da gravidade do problema. Todos os dias, ele operava verdadeiros milagres, realizando tratamentos de alto nível, que seriam bastante onerosos para muitas famílias. Isso tudo, vale lembrar, sem que Carlos alterasse uma vírgula sequer do seu caráter e do seu amor à profissão, com uma empatia homérica por todos nós, a quem tratava com uma camaradagem sem igual. Nem preciso comentar, então, o baque que foi quando ele se aposentou: era como se todos perdessem um membro da família. Um exemplo de vida, o Carlos. A entrega dele me lembrava bastante à da nossa professora de língua portuguesa, Ângela Gomes, que também tinha todos os motivos do mundo para cumprir seu ofício mecanicamente, sem se desgastar diante de um cenário tão adverso. Mas não ela: apaixonada pela língua de Camões, onde gostava de ser e de estar, diariamente ela se insurgia com os cortes burocráticos dos figurões da política, que não raro destratavam a literatura e minguavam recursos para as escolas onde ela trabalhava. Mesmo assim, Ângela não arrefecia: preparava cada aula com paixão inigualável, sempre nos incentivando a ler, a conhecer, tentando incutir o máximo de cultura que conseguisse. Hoje, também soa heroico lembrar da quantidade de vezes em que Ângela levava para a sala de aula os mais variados clássicos da literatura que ela comprava do próprio bolso (naquela época!), sem receber nenhum incentivo por isso, fazendo-nos ler em sala, conhecer cada autor, mimeografando lições relativas aos livros, fazendo um esforço admirável para oferecer literatura a quem não tinha. Em vez de conteúdos prontos e pobres, ela nos abria a comporta do mar de Camões e Pessoa, do samba de Chico e Noel, do sertão de Rosa e Graciliano, da prosa de Rubem e da poesia de Vinicius, deixando uma marca indelével em cada um de nós. Infelizmente, não vejo Carlos e Ângela há anos, mas o fato é que eles nem precisaram escrever epopeias ou virar estátuas em praça pública para garantirem reconhecimento, como dizia Maiakóvski. Pela maneira como realizaram seus ofícios, já estão bem providos de eternidade.