Terra de gigantes

Terra de gigantesEm uma de suas clássicas “Confissões”, Nelson Rodrigues relatou que, com sete, oito anos, achava os velhos muito mais fascinantes do que os jovens. “Um dos nossos vizinhos era um ancião hemiplégico. Até a doença parecia linda”, escreveu Nelson, com seu clássico estilo hiperbólico, que sempre nutria enorme admiração pelo passado. Talvez eu não chegue a tamanho embevecimento, mas, assim como Nelson e tantas outras pessoas, também tive um desses anciões espectrais: o grande Seu Zé.

Até hoje, porém, não faço a mínima ideia de sua história ou genealogia. Sei apenas que morava a poucos metros de nossa casa e, decididamente, marcou a infância de todos por ali. Era um humilde lavrador, que ajudava cada habitante da vila como se fossem seus filhos, tendo construído um pequeno barraco em meio a um pomar, onde também instalara um banco, de onde observava tudo em profundo silêncio, enquanto à sua frente escorria o tempo e a vida de todos nós. Isso lhe permitia enxergar o que muitos não viam, fazendo com que o velho seu Zé discorresse sua prosa sempre com máximas certeiras para cada pessoa, cada problema, quase como um oráculo presente no interior do interior do Brasil, vivendo uma vida a serviço dos outros, jamais para si mesmo.

A memória dele me veio dias atrás, ao cair em minhas mãos um volume magro e humilde, tal como o saudoso ancião: tratava-se do “Prosas seguidas de odes mínimas”, de José Paulo Paes. Foi nele que o poeta paulista se distinguiu de toda sua obra anterior – marcada pela concisão e pela total economia de palavras – para dar lugar às memórias de infância, apresentando em longos versos as mais diversas figuras de sua juventude, incluindo anciões parecidos com Seu Zé.

Mas a semelhança entre eles não se dá apenas por isso (nem pelo nome, inclusive), mas pela devoção à humildade que, em ambos, parecia enraizada até os ossos. Foi neste livro, por exemplo, que José eternizou os versos onde relatava a amputação de sua perna esquerda, por conta de uma doença crônica, além da experiência da bengala: “Contigo me faço/pastor do rebanho/de meus próprios passos”, narrava ele, com tocante simplicidade, enquanto lembrava que “nenhuma perna era eterna”, marcando com ironia e humor aquele que foi um dos momentos mais delicados de sua vida.

Tanto que, ao imaginar uma inscrição para seu túmulo, o poeta optou pela humildade, em vez do tom solene. “Para quem pediu sempre tão pouco, o nada é positivamente um exagero”, decretou Paes, que, como o outro Zé, mirava o ínfimo, sem saber que, assim, tornava-se gigante.