O menino de sua mãe

(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
sthevodamaceno@maniadesaude.com.br

O menino de sua mãe “Como esses primitivos que carregam por toda a parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio…”. Não adianta: basta chegar o quinto mês do ano para Drummond me vir à cabeça. Ainda bem né, já que, se pensarmos em abril, lembraremos de T. S. Eliot, que decretou-o como o mais cruel dos meses… Mas maio não! Maio exala lirismo, enternecimento. Tanto que, historicamente, é o mês das mães, o que ajuda a intensificar a atmosfera lírica nesta época do ano.

Já que falei em Drummond pela milésima vez (aliás, o que somos nós sem as nossas obsessões, como diria o Nelson Rodrigues?), sempre me recordo de uma passagem curiosíssima de sua biografia, revelada pelo escritor José Maria Cançado. Ele sempre lembrava do quanto Drummond era tido como um dos escritores mais sérios e reclusos de nossa história, ainda que fosse autor de crônicas muito bem-humoradas. Isso porque o dia a dia do poeta dava outra conotação: a timidez pétrea repelia as pessoas a se aproximarem, incluindo amigos próximos.

A sisudez drummondiana era tamanha, que até amigos como Millôr Fernandes e Affonso Romano de Sant’Anna viveram situações de simplesmente ignorá-lo, propositalmente. É clássica a história de Affonso, que saiu de Minas e foi ao Rio apenas para falar com Drummond. Encontrou-o no elevador do prédio em que o poeta trabalhava: estavam ambos ali, naquele cubículo e Affonso, simplesmente, não falou com o poeta, e ambos, ao que parece, fingiram que não se viram. A porta se abriu e cada um foi para um lado. Chega a ser nonsense imaginar um escritor do porte de Millôr Fernandes encontrar o poeta na rua e simplesmente mudar de calçada, mesmo sendo amigo dele. Era apenas o medo de ferir sua intimidade, tão bem preservada.

Ou seja: quem via Drummond, no dia a dia, não via um poeta famoso e afável, pronto para uma aproximação, mas sim um ser tímido, arredio, que transparecia isso até no próprio visual, quase sempre de terno e gravata. Por isso soou tão terna a revelação de Cançado ao mostrar que, já naquela época, sendo esse poeta consagrado e esse homem tão maduro, dono de uma aparente sisudez do tamanho de sua obra, Drummond na verdade costumava ir a Minas visitar sua mãe e, recluso, passava longas horas deitado no colo dela, com seu indefectível terno e gravata, em total silêncio. Dá para imaginar o Drummond das fotografias escolares protagonizando uma cena dessas, no alto de sua maturidade, como se fosse um pré-adolescente que acabara de aprontar alguma e recorrera ao colo da mãe?

Mas é bonito visualizar a cena, não é mesmo? Especialmente se pensarmos nas inúmeras gerações de leitores que buscaram em Drummond algumas respostas para a vida, quando, no fundo, muitas vezes ele as buscara no colo da mãe – essa palavra, aliás, tão econômica, tão ao gosto do poeta, já que possuía apenas três letras, como lembrou outro colega de ofício, o gaúcho Mario Quintana:

Três letras apenas, as desse nome bendito. Mas, nelas, cabe o infinito”.