Sempre eles!

(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
sthevodamaceno@maniadesaude.com.br

Sempre eles! Dirigir-se a um público futuro não é tarefa fácil. Mas muitos autores tiveram esse intento. Um deles foi Italo Calvino, em meados dos anos 1980. Naquela época, o escritor italiano faria um ciclo de conferências em Harvard, EUA, mas acabou falecendo antes de proferi-las. Entretanto, os textos a serem lidos deram corpo ao volume Seis propostas para o próximo milênio, que se tornou um de seus livros mais famosos, além de um grande testamento literário. Naqueles textos, Calvino se dirigia a uma modernidade que, até então, apenas batia à porta (eram tempos analógicos, onde a internet ainda engatinhava no mundo). Mas o que chamou a atenção, mesmo, foi ele iniciar suas conferências com um tema meio inesperado: a Leveza. Para Calvino, tratava-se de um dos atributos que mais lhe tocavam o espírito, a ponto de ele ter se esforçado, como escritor, a retirar o peso da própria linguagem, durante sua trajetória de ficcionista e ensaísta. Era um contraste nítido ao seu início de carreira, onde a tendência dos escritores era a de representar a sua própria época (mesmo sendo ela o século XX, que Eric Hobsbawm denominou “A Era dos Extremos”, onde imperou nada menos do que duas guerras mundiais). Calvino percebeu, nesse ínterim, que “representar a sua época” fatalmente infundiria em qualquer narrativa um peso muito maior do que a literatura, de fato, necessitava. “Às vezes o mundo inteiro me parecia transformado em pedra: mais ou menos avançada segundo as pessoas e os lugares, essa lenta petrificação não poupava nenhum aspecto da vida, como se ninguém pudesse escapar ao olhar inexorável da Medusa”, revelou ele, que passou a considerar a leveza antes um valor do que um defeito, apontando-a como uma importante lição a ser seguida no século XXI, que ele não chegaria a ver. Foi impossível não lembrar, nesse contexto, de um dos autores prediletos de Calvino: o argentino Jorge Luis Borges, que também fora convidado para palestrar em Harvard. Foi lá que Borges ministrou seis aulas fabulosas, depois compiladas no volume Esse ofício do verso. Nelas, como sempre, o argentino olha mais para o passado do que para o futuro, mas, ainda assim, acaba perfazendo outra coincidência: a de deixar uma lição fundamental para a posteridade, que logo nos remete às lições calvinianas. Isso porque, ao desfiar um verdadeiro novelo de autores para resumir o funcionamento da metáfora, Borges lembrou aos alunos que, no campo da linguagem, “qualquer coisa sugerida é bem mais eficaz do que qualquer coisa apregoada”. “Talvez a mente humana tenha uma tendência a negar declarações. Lembrem o que dizia Emerson: argumentos não convencem ninguém. Não convencem ninguém porque são apresentados como argumentos – e então os contemplamos, e refletimos sobre eles, e os ponderamos, e acabamos decidindo contra eles”, declarou o mestre, evidenciando a necessidade de, no campo linguístico, prezar por um pensamento mais sofisticado, em vez de tecer meras batalhas argumentativas. O exemplo é perfeito para ilustrar o oceano de incompreensão a que estamos imersos na atualidade, onde as redes sociais se converteram em verdadeiras tribunas de ódio e ressentimento, já que todos tentam convencer os outros de tudo, o tempo todo, sem que ninguém, de fato, seja capaz de ouvir ninguém. Como diria o Artur da Távola, são muitas opiniões para poucos pontos de vista. O ódio político e social a que assistimos talvez sejam apenas um dos sintomas que a bela lição de Borges e Calvino talvez pudessem remediar. Ou aquela do Mario Quintana, quando dizia que o diálogo, muitas vezes, nada mais era do que dois “monólogos intercalados”. Difícil discordar deles, não é mesmo? Até porque eram poetas – e poetas, segundo Rainer Maria Rilke, são a expressão mais alta de humanidade.